Vamos terminar este primeiro grupo desta série destacando, desta vez, não uma mas duas fotografias, que, apesar de separadas no tempo, nos parecem justificar plenamente um emparelhamento. Sabemos que a qualidade técnica delas (cópias de negativos já deteriorados…) não é a desejável, mas a sua importância documental releva, na nossa opinião, esse facto, tornando-o secundário (1).
Comecemos pela mais divulgada e celebrada, por nos começos da década inicial do século XX ter sido incorporada numa edição de BPI - “animada”, isto é, policromada -, do editor lisboeta “Malva & Roque”. Como se vê o foco do seu enquadramento incide sobre a existência simultânea e vizinha de duas obras municipais muito aguardadas – o Jardim, de 13 de Setembro de 1891, e o Mercado, inaugurado no dia de S. João de 1892 - que aproveitaram a área de entulhamento da antiga Praia da Fonte, e um terreno limítrofe, a poente dela, que foi expropriado à quinta de Joaquim de Campos Ribeiro, onde este vivia.
É caso para dizer, brincando um pouco, que o problema ligado a esta imagem “são dois”: o da sua datação, claro, mas a ela intimamente ligado o da sua autoria! Tem sido habitual ver a atribuição dela a Carlos Relvas, e a datação ser ligada à legenda duma reprodução dela, numa cópia existente no AFMFF (2), onde consta uma datação, diga-se, absolutamente risível – 1885 (pasme-se!), altura em que a Praia da Fonte ainda o era… - e dois anos antes da autorização estatal para o começo do seu entulhamento final, terminado em 1890!... ver aqui
Uma vez perdida a credibilidade desta datação, melhor fim não nos parece haver para a atribuição a Carlos Relvas. Há dois elementos na imagem determinantes para a sua datação: um está ligado obviamente ao desenvolvimento das espécies do Jardim, que na imagem se percebe estarem ainda na sua fase inicial (depois das plantações iniciais de Julho de 1891, e do lago ter recebido a sua água, já em Setembro); o outro encontra-se à direita do observador: a presença do Coreto inicial, adjudicado à oficina figueirense de Francisco Mota Quadros, também em Julho desse ano, mas que no começo de Novembro de 1891, é dito nos jornais, ainda não ostentava a sua cobertura… que só terá ficado concluída ou em Dezembro desse ano, ou já só em Janeiro de 1892. Só depois lhe foi acrescentada a estrutura para a colocação do estrado de madeira, que, como se vê, ainda não existe na imagem (3). Estaremos assim perante uma fotografia que terá de corresponder à primeira metade de 1892. Ora, nesse ano, Carlos Relvas não veraneou na Figueira. Atribuir-lhe a autoria parece-nos pois manifestamente desadequado, a não ser que se aceite que ele possa ter estado presente numa passagem avulsa, mas, que a ter acontecido, teria que ter deixado pegadas nos jornais locais, que não se encontram. Na cópia do negativo que apresentamos foram inscritas, num pequeno círculo, as iniciais “GM”, que julgamos corresponderem à sociedade “Gonçalves & Monteiro” (constituída, ao que julgamos, em 1903 pelos fotógrafos José Gonçalves e António da Silva Monteiro). Não sabemos se essa leitura, que parece ter sido feita pelo colecionador José dos Santos Alves, estará ou não correcta, mas, ainda que provisoriamente, pensamos que deverá ser considerada, embora nunca referida à sociedade em si, claro, olhando ao desfasamento temporal que logo notamos, mas sim em atribuição à actividade do seu elemento principal – o fotógrafo lisboeta José Gonçalves, com Estúdio permanente aberto na Figueira – a Photographia Europa –, desde 1888.
E entra aqui a 2ª imagem, possuidora dum plano inédito, no que se refere às fotografias da época. Nela – e é um primeiro mérito seu – podemos ver desde logo o sítio da tomada de vistas da imagem anterior (ao fundo, à direita do observador): o prédio da firma Águas & Filhos - concluído em Novembro de 1892 -, e já com o seu anexo baixo de lojas (ainda hoje existente), só concluído em meados de 1893. Mas o mérito maior dela é a comprovação que faz da evolução das espécies arbóreas do Jardim e em particular da sebe que lhe foi acrescentada, quer do lado do Mercado (baixa) quer do lado do rio (já bem alta!), a par da documentação que faz do Coreto referido, quer em termos de dimensão externa, quer em termos de estrutura interna. Trata-se de uma imagem que, pelo que vemos, podemos atribuir ao período de 1896-98, quando sabemos que essa sebe já atingia uma altura tal que justificava os reparos do jornal local que divulgamos.
Resta abordar, também intimamente ligada a ela, a questão da autoria, afastada que está a possibilidade de ser atribuída a Carlos Relvas (falecido em Janeiro de 1894) - como parece, num primeiro momento, ter sido feito pelo dono da Casa Havanesa que nela inscreveu, como se vê, num pequeno círculo, as iniciais “CR”. Mas, num segundo momento, colocamos uma outra hipótese: a do “CR” colocado por J. S. Alves poder corresponder a (Joaquim de) “Campos Ribeiro”, o rico proprietário que atrás referimos, e que foi um importante e muito esquecido fotógrafo amador figueirense de quem já aqui e aqui falámos, e de cuja obra documental pouco se conhece.
Esta pode ser de facto a ligação capaz de fazer sentido. Não só por ser um fotógrafo que na altura estaria em franca (embora limitada) actividade, mas também por se perceber que o ponto de tomada de vistas da fotografia, olhando à sua angulação, aponta para ter sido realizado a partir da varanda… da sua casa... que vemos no BPI de Malva & Roque, junto ao Mercado, a norte – casa onde depois (4) funcionou o Hotel Espanhol e se veio a instalar, já nos anos de 1930, o “Colégio das Freirinhas”! Seria bom podermos comprová-lo!...
FM
Notas:
1) São fotografias pertencentes à Colecção de José dos Santos Alves (proprietário da Casa Havanesa), hoje na posse do AFMFF.
2)
3) Não conseguimos determinar quando foi colocada, mas sabemos pelo Correio da Figueira, que no dia 22 de Maio de 1892, domingo, tocou lá, no que parece ter sido a estreia das actuações na plataforma, a Filarmónica Figueirense.
4) Depois do insucesso do seu projecto industrial principal - o da sociedade Ribeiro & Águas, fundadora duma importante e moderna fábrica de conservas, na rua 10 de Agosto -, J. C. Ribeiro viveu o processo de dissolução da mesma, após a sua tomada pelos credores, firmado em escritura de 23 de Agosto de 1907. Nesse contexto, esta casa e outra (e outros bens) foram alvo de penhora, e isso terá estado na origem da decisão que tomou de se retirar para a cidade do Porto.





Muito bem!
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