A estação ferroviária da Figueira fotografada por Emílio Biel em 1882

Emílio Biel, Estação da Figueira, 1882
in Emilio Biel & Cª, Caminho de Ferro da Beira-Alta, edição In-Libris/Imago Mundi, Porto 2025

A ferrovia foi o ícone máximo da revolução industrial, símbolo da modernidade ao longo de todo o século XIX, para além de ligar os territórios, possibilitando uma maior conectividade entre diferentes zonas, abriu mercados que antes eram impossíveis de explorar, permitindo a deslocação de pessoas e bens. 

 

Foi intensa discussão, envolvendo os vários partidos políticos uns a favor outros contra, sobre a relevância da ferrovia em Portugal.  É curiosa a opinião de Almeida Garrett (1799-1854) sobre o assunto: “os caminhos de ferro tendem a destruir as divisões entre povos, a uniformizar as ideias e os costumes e a igualar as diversas civilizações. As antigas autonomias vão desaparecer: vão destruir-se todas as formas de separação conhecidas. Sob este aspecto, os diferentes povos vão constituir, num futuro talvez mais próximo do que supomos, uma sociedade única” (1). Venceram os partidários da ferrovia e esta avançou. A viagem inaugural do primeiro troço construído em Portugal, entre Lisboa e o Carregado, realizou-se no dia 28 de Outubro de 1856. 

 

Como já o referimos em anterior publicação, em Junho e Novembro de 1881 J. Moré fotografou a evolução das obras de construção da estação ferroviária da Figueira, que permitiram a inauguração da Linha da Beira Alta a 3 de Agosto de 1882, ligando a Figueira da Foz a Vilar Formoso e a Espanha. Foi também nesse ano de 1882 que Emílio Biel (2) fotografou a mesma estação ferroviária, já em pleno funcionamento como atesta a fotografia (fototipia) que agora publicamos. Não temos dúvida de que a fotografia foi registada ainda em 1882, já que a mesma ou uma outra registada na mesma altura (3), serviu de base a uma gravura publicada na revista O Occidente a 1 de Dezembro de 1882. Emílio Biel foi solicitado pela própria revista para fotografar toda a Linha da Beira Alta com o fim de ilustrar a grande reportagem que descreve minuciosamente a extensão da linha ferroviária, pontes e estações então inauguradas. As fotografias foram referência para as diversas gravuras publicadas ao longo de vários números da revista, entre 21 de Agosto e 12 de Dezembro de 1882.

 

As companhias dos Caminhos de Ferro desde cedo recorreram à fotografia como forma de controle dos trabalhos em curso e a utilizaram na publicidade da sua atividade comercial. Apesar de algumas raras fotografias anteriores, é sobretudo a partir dos anos 70 que se intensificam os registos fotográficos que documentam o esforço da progressão ferroviária no país. Emílio Biel foi o mais importante protagonista desse levantamento fotográfico, são dele a sucessão de fotografias panorâmicas da construção da Ponte D. Maria Pia; as fotografias da Linha da Beira Alta em 1882, a Linha do Minho até Valença e a sua ligação à Galiza em 1886; as fotografias da linha do Douro entre 1883 e 1884; da Ponte D. Luís e das obras do Porto de Leixões entre 1884 e 1892. Grande parte deste levantamento fotográfico foi posteriormente editado através da fototipia, em álbuns temáticos, já durante a década de 90. 

 

Demorou ainda algum tempo a ser inventada uma técnica que permitisse reproduzir em papel as imagens fotografadas, de forma a serem rapidamente publicadas na imprensa ou outras publicações. A fototipia teve a sua introdução em Portugal em 1875 pelo fotógrafo Carlos Relvas que adquiriu o processo e contratou o filho do técnico austríaco Carl Heinrich Jacobi que tinha melhorado e aperfeiçoado o processo fotomecânico, para o vir demonstrar no atelier da Golegã. C. H. Jacobi deslocou-se também ao Porto a convite de Emílio Biel para transmitir os referidos procedimentos. Passou a Casa Biel a desenvolver uma intensa actividade editorial com recurso à fototipia. Para além da edição de diversos álbuns sobre a ferrovia portuguesa, um deles sobre a Linha da Beira Alta, de salientar um álbum sobre o Douro (O Douro, principaes Quintas, Navegação, Culturas e Costumes), os quatro volumes sobre Angola em 1885, do fotógrafo Cunha Moraes (A Affrica Occidental, Álbum Photographico e  Descritivo da Affrica Occidental) e por fim a sua mais importante edição, A Arte e a Natureza em Portugal, inicialmente publicada em fascículos entre 1902 e 1908 e posteriormente reunidos e publicados em oito volumes.

RF

Emílio Biel, Valle do Mondego, 1882
in Emilio Biel & Cª, Caminho de Ferro da Beira-Alta, edição In-Libris/Imago Mundi, Porto 2025
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Notas:

(1) Texto de Manuel de Novaes Cabral 

in Emilio Biel & Cª, Caminho de Ferro da Beira-Alta, edição In-Libris/Imago Mundi, Porto 2025

 

(2) Emílio Biel (1838-1915) 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Em%C3%ADlio_Biel

 










(3)

Emilio Biel - Estação da Figueira, 1882

in Maria do Carmo Serén, Emílio Biel - No Trilho dos Cavalos de Ferro, Ed. Encontros de Fotografia, Coimbra 1993

Fotografia registada na mesma situação temporal e com o mesmo ponto de vista da fotografia publicada. Deverá ter sido esta a fotografia que serviu de referência para a gravura publicada no O Ociddente a 1 de Dezembro de 1882.










Bibliografia:

 

- Maria do Carmo Serén, Emílio Biel - No Trilho dos Cavalos de Ferro, Ed. Encontros de Fotografia, Coimbra 1993

 

- AAVV, O Portugal de Emílio Biel, Arquivo Histórico Municipal/Câmara Municipal do Porto, 2015

 

- Paulo Artur Ribeiro Baptista, A Casa Biel e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos, Edições Colibri, Lisboa 2010

 

- Emilio Biel & Cª, Caminho de Ferro da Beira-Alta, edição In-Libris/Imago Mundi, Porto 2025

 


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