O problema das datações (V) - Uma outra preciosidade de Carlos Severino de Avelar

 

Figueira da Foz - Praia da Fonte - 1883 - cliché de Carlos Severino de Avelar (col. AFMFF)

   Trazemos hoje na sequência desta série uma fotografia que bem podemos designar de única, e num duplo sentido: única pela sensibilidade documental com que o fotógrafo açoriano - mas com Estúdio na Figueira, construído em 1881-82 ver aqui e aqui-, Carlos Severino de Avelar, soube construir o seu conteúdo; e única também porque não conhecemos mais nenhuma outra, anterior ou posterior, que tenha guardado para a posteridade uma parte da fácies da última das três docas naturais resultantes das particularidades da nossa topografia - a da “Praia da Fonte”. As outras duas – as da Ribeira e Reboleira (hoje as Praças “Velha” e “Nova”) - foram atulhadas nos finais do século XVIII; esta foi resistindo até ao momento em que a cidade a envolveu e a tornou inviável – desde logo com a construção em 1859 do viaduto de ligação ao futuro Bairro Novo que a anulou como doca, e depois, com o entulhamento parcial do seu lado norte, do final dos anos 60, que ajudou ainda mais a transformá-la num empecilho e vazadouro, final e imundo, que todos quiseram eliminar. Com vista à construção do Jardim e depois do Mercado municipais, veio em 1887 o seu epílogo final: o entulhamento total para a criação do “Largo José Luciano de Castro”, onde em Julho de 1891 se inaugurou o embrião do Jardim Municipal, ainda vivo e em desfrute.

    E é a Doca da Fonte moribunda que, como se vê, constitui o centro desta imagem. E é para a sua datação que vamos caminhar, muitos anos depois de a termos encontrado numa obra (1) que estranhamente a atribuía ao ano de 1864. Cremos que se terá tratado de uma gralha tipográfica, perante as evidências várias da imagem: desde logo pela existência a oriente da toalha líquida da grande mole composta pelos 2 armazéns do poderoso negociante, produtor e exportador de vinhos, José António Simões, já depois da fase de alteamento do bloco do sul, realizado em 1882-83; depois pela presença, frente a este último bloco e do lado ocidental, das obras de construção da casa do talhante Bartolomeu Pinto - adossada à casa, recentemente demolida, que foi herdada por Joaquim de Campos Ribeiro em 1883, e que foi mais tarde o Hotel Espanhol, antes de ser, no início dos anos 30, o local de instalação definitiva das popularmente denominadas “Freirinhas”, – com base num Requerimento feito à Câmara em 18/6/1883; finalmente - e como elemento determinante para se chegar a uma datação mais aproximada – a presença, no canto esquerdo do observador, da subida do cunhal nascente-sul das obras de edificação do “Teatro-Circo”, iniciadas em 31/3/1883, e que evoluíram com rápida progressão e desconcertante optimismo, como se pode intuir ao ler as duas notícias que juntamos.



Jornal "Comércio da Figueira" - 31/3/1883

Jornal "Comércio da Figueira" - 7/4/1883

    Apenas aparece uma pequena árvore na imagem. Pelo volume da sua copa podemos certificar-nos que estamos no Verão, como seria de esperar, o que conjugado com os elementos que apresentámos, nos pode levar a uma datação relativamente aproximada: meados do Verão de 1883.

FM


Notas:

1) Jorge Carvalho Arroteia, Figueira da Foz - A Cidade e o Mar, CCRC, Coimbra, 1985, p.60.




Comentários