José Maria dos Santos e a Figueira da Foz

José Maria dos Santos, Photographia Conimbricense, Buarcos, finais do séc. XIX (colecção de Alexandre Ramires)

    Na sequência de anterior publicação sobre o Bussaco, pretendemos manter o foco na actividade do fotógrafo de Coimbra José Maria dos Santos e na sua provável relação com a Figueira da Foz.


    Em 1869 José Maria dos Santos, então com cerca de 37 anos, adquire a casa fotográfica Nogueiro & Atkinson (1) situada no Páteo do Castilho, ao Arco d’Almedina. Passa a chamar-se Photographia Conimbricense e vai dar início a uma longínqua e intensa actividade fotográfica em Coimbra que se irá prolongar século XX dentro, pelas mãos dos seus dois filhos.

 

José Maria dos Santos, Photographia Conimbricense, CDV c.1870 (colecção particular)

    Desde muito jovem que José Maria dos Santos terá manifestado interesse pela fotografia, mas não foi por aí que se iniciou profissionalmente. Já em 1862 anunciava a sua actividade de ourives, encarregando-se da realização de próteses dentárias na rua da Calçada 59 (2). Mesmo depois da abertura da Photographia Conimbricense, mantém essas ocupações ainda na década de 80, chegando por diversas vezes a publicitá-las juntamente com a fotografia. 


    No Pátio do Castilho desde 1869, a Photographia Conimbricense foi passando por diversas moradas ao longo da sua existência: rua Nova da Rainha 6, de 1871 a 1875, na rua da Sofia 153, de 1875 a 1886 e na sua morada definitiva, Cais das AmeiasAvenida Navarro, até meados do séc. XX (3).  Sendo um dos mais importantes estúdios fotográficos da cidade, o seu trabalho foi premiado com medalha de ouro na Exposição Distrital de Coimbra de 1884, premiado com menção honrosa na Exposição Universal de Paris de 1878, premiado no Palácio de Cristal do Porto em 1886 e na Exposição Industrial de Lisboa de 1889. Participou ainda na Exposição Universal de Chicago de 1893. 


  Procurando estar actualizado relativamente à evolução dos processos fotográficos da época, refere em 1876 ter encomendado na Alemanha o equipamento necessário para se dedicar à fototipia (4). Ao longo das várias décadas de actividadeproduziu imagens em múltiplos formatos e técnicas, entre elas vistas estereoscópicasColaborou em diversas publicações periódicas, particularmente com o Panorama Photographico de Portugal, dirigido por Augusto Mendes Simões de Castro, na segunda fase da sua publicação, entre 1872 e 1874 (5), e mais tarde com O Panorama Contemporâneo, dirigido por Trindade Coelho e publicado entre 1883 e 1884

 

José Maria dos Santos, Photographia Conimbricense, CDV c.1890 (colecção particular)

    Ao contrário do que era hábito à maioria dos seus colegas fotógrafos de Coimbra, não conhecemos notícia de ter aberto atelier na Figueira da Foz durante a época balnear. A consolidada actividade fotográfica desenvolvida em Coimbra, mesmo em período de baixa de negócio durante as férias da Universidade, não exigia a deslocação à Figueira. Contudo José Maria dos Santos manteve relações estreitas com a Figueira da Foz. Já nos referimos em publicação anterior à sua amizade com o figueirense Francisco Ferreira de Loureiro. Tinha também ligações familiares com a Figueira: foi casado com Luzia de Bastos, cuja mãe era da Figueira. Ana de Bastos solteira, irmã de Luzia, viveu e veio a falecer inesperadamente na Figueira da Foz  ao receber a visita do Visconde de Fragosela (6), amigo da família e de José Maria dos Santos, com quem chegou a visitar a Figueira, em Dezembro de 1878.

 

    É de José Maria dos Santos a fotografia (7) que reproduzimos a abrir a presente publicação, registada dentro do mar de Buarcos, numa serena tarde de Verão. A descontração do momento, revela-nos mais de um fotógrafo em lazer, saboreando a situação, do que de um fotógrafo no exercício restrito do seu trabalho comercial. 


RF

José Maria dos Santos, Photographia Conimbricense, Cabinet déc.90 (colecção particular)

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Notas:

(1) - O Tribuno Popular de 4 de Agosto de 1869.

Nogueiro & Atkinson CDV c.1869 - Com uma existência breve em Coimbra, temos notícia da sua actividade a partir de 1867. Com a venda do estúdio em 1869, Thomaz Atkinson continuou por algum tempo como operador da Photographia Conimbricense. Compare-se a semelhança gráfica deste CDV com os primeiros CDV da Photographia Conimbricense, dos quais publicamos um.









(2) - O Tribuno Popular de 26 de Abril de 1862. 

(José Maria dos Santos terá começado a dedicar-se à fotografia a partir de 1866 segundo Eduardo Mamede in Os Primórdios da Fotografia em Coimbra, pub. Revista Munda nº 13, Maio 1987)

(3) – Fotografia do estúdio da Photographia Conimbricense do Cais da AmeiasAvenida Navarro, autor desconhecido, s/d.








"Percorreu ontem as ruas da cidade o carro do sr. José Maria dos Santos, hábil photographo com atelier no largo da Portagem. É um carro elegante, puxado a um cavalo e que deve servir para o photographo se transportar de um lado para outro lado, tendo tudo disposto no interior, para que elle possa exercer a sua arte ao abrigo das intempéries" - in O Conimbricense de 3 de Maio de 1873


(4) - Phototypia – O Tribuno Popular de 24 de Março de 1876.

(5) – Poderá já ser de José Maria dos Santos a fotografia do Forte de Santa Catarina publicada no número 11, 1ª série d’ O Panorama Photographico de Portugal de 1871(?), no início da colaboração da Photographia Conimbricense com a referida publicação.








(6) - Notícia do falecimento de Ana de Bastos n' O Tribuno Popular de 29 de Outubro de 1873.

(7) – Fotografia gentilmente cedida por Alexandre Ramires.

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