O problema das datações (II) - Mais uma preciosidade de Francisco Loureiro...

 Figueira, Figueiras 14

Figueira da Foz - Zona Ribeirinha (Este) - cliché de Francisco Ferreira de Loureiro - c. 1868-69
(col. AFMFF)

   Depois do que vimos ultimamente, não podemos deixar de destacar esta fotografia, parelha das que publicámos no post anterior desta temática (aqui) e, como elas, muito fundamental e icónica, porque, como se vê, nos permite olhar agora a Figueira na direcção de Este, num momento decisivo da sua história urbana.

   Por ser um documento raro e precioso mereceu a atenção do artista figueirense António Piedade, que, nos anos 30 do século passado, a reproduziu num desenho, quase fiel (1), muito estimado pela imprensa local. Dela era conhecida uma autoria – embora pouco afirmada por não se conhecer a que fotógrafos se referiam as iniciais “Ferreira & Borges”, presente num carimbo seco aposto na margem da cópia que trazemos, da colecção do AFMFF (2) - mas a falta de uma datação comprovada esteve na origem, em momentos da sua divulgação, de datações muito díspares e contraditórias. Evidenciamos algumas das que inventariámos: 1860 (3); 1865 (4); 1870 (5) e 1876 (6)! É obra!

   Tentemos então iluminar com um pouco mais de luz a questão (7). Olhando com atenção percebemos que há dois pólos centrais nesta fotografia: num primeiro plano, sentimos o primeiro: o novo “Largo do Carvão”, ou seja, o tal espaço que, como vimos, a Vila ganhou com a demolição do velho Armazém das Minas do Cabo Mondego que o recolhia. E pense-se na presença dele para explicar a existência da parede nua, e quase cega, que o prédio que foi do Augusto Silvério exibe, bem em frente, à esquerda (8). Sabemos que só em Agosto de 1870 ele conseguiu a compra do espaço público necessário para alargar a casa, e proceder à abertura de portas e janelas para o Largo. Ora, e sabendo nós que a demolição e levantamento do tal Armazém não devem ter ficado concluídos senão nos começos de 1868, ou mesmo depois, ficamos já na posse de um limite temporal inferior que não admite ultrapassagens.

   Olhando para lá das casas da Alfândega e do Cais que se sucedem à do Silvério, percebemos que a atenção é atraída para um segundo pólo: o do “Passeio”, a tal via de circulação que ia passar entre a casa chamada “da Maria José” (a pequena, branca) e o “Armazém da Companhia” (do Gás, de Coimbra, junto ao rio), de que já falámos. E foi desse local que foram tiradas as duas fotografias que abordámos anteriormente. E lá estão, para cá dele, e à nossa esquerda, as tais casas-armazéns, com cais privativos, de que também falámos, com a novidade, agora, de, no começo da linha delas, se poder observar parte da importante casa da família Santiago Gouveia (Conde de Verride, em 1901), ainda hoje existente na Rua das Lamas (a lateral norte e traseiras), no Largo Tenente Valadim (frontaria), e Rua da República (lateral sul, ocultada pelas construções posteriores).

   Depois de passar pelo fundo árido e montanhoso último – onde se destaca, quase encostado à esquerda, o “Cabeço da Salmanha” – e de descer à zona dos cais avulsos e praias da frontaria da Praça Nova, o olhar só parece sossegar na vastidão despojada das linguetas do Cais da Alfândega e da área de prolongamento da Praça do Comércio (com aterro concluído em 1857, após o levantamento, em 1851, da couraça que a limita, junto ao rio, e já na direcção do canto direito da imagem, em baixo). E então percebemos uma outra coisa: que não parece haver quaisquer sinais, para lá destas estruturas (9), das obras estatais que no Verão de 1869 (10) terão iniciado, frente à Praça Nova, a construção da couraça de ligação à do aterro necessário à construção do novo Cais da Vila. E eis-nos chegados ao limite temporal superior desta fotografia, que, assim sendo, terá sido tirada, como se conclui, ainda em 1868 ou já na primeira metade de 1869. Há cerca de 156 anos, portanto, o que faz dela uma das nossas preciosidades patrimoniais.

FM

Notas:

1) Não conhecemos as razões que levaram o artista a actualizar a fachada do prédio que se vê em primeiro plano à esquerda (adicionando o que resultou de obras posteriores à data da fotografia). Em tudo o mais o desenho inspira-se, no essencial, na imagem original, como se pode ver na imagem que juntamos e que retirámos do jornal "Mar Alto", de 1/2/1967.

2) Hoje sabemos já que o "Ferreira" é o nome artístico de Francisco Ferreira de Loureiro, mas continuamos sem conseguir confirmar a identidade correspondente ao "Borges"... embora haja a suspeita de que possa ter sido o advogado José Joaquim Borges, presidente da Câmara nos anos de 1868-69...

3) Jorge Arroteia, “Figueira da Foz: a cidade e o mar”, CCRC, Coimbra, 1985, p. 59.

4) Jornal “Mar Alto”, 1 de Fevereiro de 1967 - “1865: o Cais quando Ramalho Ortigão veio à Figueira”.

5) Inscrito no verso do exemplar do AFMFF, que publicamos, e que corresponde à data que lhe foi atribuída pelo Dr. Mesquita de Figueiredo, em 1906, num artigo que publicou na revista “Illustração Portuguesa”, em 3 de Setembro.

6) “Boletim”, Comissão Municipal de Turismo da F. da Foz, Nº2, 1941.

7) Coisa que não é de somenos! Pior do que não ter documentos é tê-los com significações atribuídas que não lhes cabem!...

8) Nesta casa o A. Silvério instalou a 1ª Tipografia da Figueira, com a qual produziu e dirigiu, a 1ª série do nosso primeiro jornal - “O Figueirense” -, nos idos de 1863-64.

9) Que apresentam um ar de obra nova, em resultado da intervenção de substituição e ampliação dos Cais anteriores (que vinham de 1842) feitas sob a direcção do Eng.º Adolfo Ferreira de Loureiro, em 1867-68.

10) Na página 28 da sua obra “Figueira da Foz e Buarcos-1861-1910...”(CEMAR, F. Foz, 1998), o Dr. Rui Cascão situa em Junho de 1867 o arranque destas obras. Numa conversa tida com o jornal coimbrão “Tribuno Popular”, em 18/11/1871, o Eng.º Adolfo Loureiro diz isso, mas julgamos, no entanto, que se trata de uma referência à época da compra dos materiais necessários ao arranque das obras (madeiras, pozolanas, etc.) e talvez à criação do estaleiro de arranque que parece ver-se iniciado ao fundo, à direita, já que o Projecto Director das mesmas, desse mesmo Eng.º, tem a data de 21/4/1869, e foi sujeito, depois, à espera da aprovação superior...

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Este texto foi publicado originalmente no jornal "A Voz da Figueira", em 18/3/2020. Republica-se agora, mas com algumas alterações e acrescentamentos, que se impuseram para o texto poder ser ajustado ao contexto deste blogue, e também pelo progresso das investigações.



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