Figueira, Figueiras 12
Figueira da Foz - Frente ribeirinha - c. 1867
Para concretizarmos a datação da fotografia do post anterior, vamos socorrer-nos daquela outra imagem que nele referimos, e que hoje reproduzimos, tal como foi divulgada no folheto em que foi publicada (1).
Se as compararmos, rapidamente constatamos a presença de várias semelhanças, excluindo, claro, as figuras que, na de hoje, e em primeiro plano, quase que nos cumprimentam! Tirando as diferenças de perspectiva, quase que poderíamos mesmo dizer que se tratam de imagens duma mesma altura ou ano. Mas não!
Repare-se numa diferença absolutamente central, presente no Largo do Carvão, ao fundo, para cá do torreão do Paço: na anterior o Largo já mostra uma configuração muito próxima da actual; mas na de hoje, eis uma extraordinária surpresa!: a presença – antes de haver Largo, e tanto quanto conhecemos pela primeira vez em imagem! - do antigo Armazém do Carvão, que está na origem do nome popular que o Largo continua a ostentar! E esta diferença é absolutamente fundamental para podermos proceder à datação e ao escalonamento no tempo das duas imagens! A mais antiga tem de ser a imagem de hoje! A degradação ou a presença da cal nos prédios mais próximos de ambas, só vem confirmá-lo!
Resta o mais difícil: tentar datá-las! Sabemos que em Janeiro de 1861 a Câmara tomou posse do dito Armazém, já devoluto, após a sua atribuição pelo Estado em 1859 (2). De Outubro de 1863 a 3 de Agosto de 1867 “as ruínas do Armazém” estiveram arrendadas, sendo nesta última data dados pela CM 30 dias ao arrendatário para o “despejar”(3). Muito provavelmente a demolição terá ocorrido logo depois, já que numa Acta Camarária de Maio de 1870 o Armazém é dado como tendo sido demolido “há anos”, e “reduzido a largo público”(4).
Estamos assim, pois, perante duas fotografias que nos fazem a memória destes dois momentos estruturantes: a de hoje, a da época da existência do Armazém, na sua fase final, ou melhor, segundo parece ver-se, na do início do seu desmantelamento final (5), facto que nos permite chegar a uma datação quase cirúrgica: Outubro-Novembro de 1867 ; a do post anterior – que republicamos - fazendo a memória inicial do Largo que todos conhecemos (6) e revelando - o que é extraordinariamente único! - a presença ainda do que existia ainda da chamada “Laje da Chumba”, bem marcada no desnível do chão, junto à casa presente no lado ocidental, laje que, em meados de Junho de 1870, foi alvo de arrematação visando a sua destruição e aproveitamento da sua pedra. Bem, e como se percebe, propor aqui uma datação rigorosa da mesma é algo mais complicado: terá de ser posterior a 1867, sabemo-lo já; mas terá de ser anterior, no limite, a Junho de 1870 (a Laje), ou mesmo a 31 de Julho desse ano, data da inauguração da iluminação através de candeeiros de petróleo, de que não existem sinais. Também nada se vê sobre o arranque das obras do novo Cais da Vila, iniciadas no Verão de 1869, no “Cais Velho”, e que vieram, depois, nos dois anos seguintes, soterrar, com a construção do “Cais Novo”, toda a área de lodo e pedras coberta pela imagem. Estaremos, provavelmente, na primeira metade de 1869, e ainda com a autoria da fotografia por confirmar (7).
FM
Notas:
1) Hoje já sabemos que se trata de uma fotografia estereoscópica, colada num cartão, que foi ofertada em meados de 2023 ao AFMFF, o que é magnífico!...
2) Por uma Carta de Lei de 23 de Maio de 1859 - AMFF, Actas da Câmara, Livro 22, Acta nº110, de 30 de Janeiro de 1861.
3) AMFF, Actas da Câmara, Livro 22, fl. 186V, de 3 de Agosto de 1867.
4) AMFF, Actas da Câmara, Livro 28, fl. 43V, de 24 de Maio de 1870. Não ficaram sinais dessas obras, no entanto, nem nas Actas, nem nos Orçamentos camarários desses anos. Esta decisão veio a impor-se aquela que inicialmente tinha encaminhado o espaço para a construção de um Teatro.
5) Em 17/8/1867 a Câmara decidiu usar a pedra do Armazém na construção de um muro de suporte de terras no Pátio de S. António, dado como pronto três meses depois.
6) Terá sido essa a motivação central do fotógrafo, que se deslocou mais para a esquerda, à procura de uma angulação que revelasse mais o Largo, assim transformado no ponto de fuga da imagem, ao centro?
7) Estaremos em presença de uma outra fotografia de Francisco Loureiro, que nesta imagem mais antiga, e com a maré mais alta, usa estes personagens como contraponto, do mesmo modo que é feito por ele depois na outra imagem, com a amplitude do lodo e pedras deixadas pela maré vazia?
O facto de ele nessa altura ser um dos condutores das obras do Cais-Doca-Barra, e de nos parecer que há uma intencionalidade na reunião dentro da imagem destes 3 personagens em 1º plano – que julgamos serem 3 dos engenheiros ligados à concepção e execução do Projecto das obras da Barra, primeiro, e do aterro para o Cais Novo e Doca, depois, que iriam transformar profundamente, e sem apelo, a Figueira ribeirinha que atrás deles ficava representada: sucessivamente e da direita para a esquerda, talvez o Eng.º Silva, Valentim do Rego ou Afonso Espregueira, e Adolfo Loureiro – parece apontar para essa atribuição. Restará confirmá-la ou não em presença de futura documentação.
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Este texto foi publicado originalmente no jornal "A Voz da Figueira", em 4/3/2020. Republica-se agora, mas com diversas alterações e acrescentamentos, que se impuseram para poder ser actualizado e ajustado ao contexto deste blogue.

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