Figueira, Figueiras - Há quase 160 anos… (I)

 Figueira, Figueiras 11

Figueira da Foz - Praia das Lamas e frente ribeirinha - cliché de Francisco Loureiro (col. particular)

    Regressamos à Fotografia Antiga Figueirense, com mais uma das preciosidades existentes no Arquivo Fotográfico Municipal, embora a nossa opção, agora, seja pela publicação de um dos originais da mesma, adquirido por um coleccionador privado, em 2024 (1).

  Trata-se de uma das fotografias mais antigas – das conhecidas – da Figueira da Foz. Tirando a gravura do desembarque das tropas inglesas na foz do Mondego, em Agosto de 1808, de Henri L’Évêque, ou a do Castelo (o Forte de Santa Catarina) da Figueira, da autoria do Barão de Forrester, publicada em 1835, estamos perante a ausência quase total de memórias visuais da Vila da Figueira anteriores à 2ª metade da década de 1860. Imaginemos agora que poderíamos vir a dispor de memórias fotográficas para a Figueira das décadas de 1840 ou de 1850-65 (já com a evolução da Fotografia a perfazer os seus primeiros 25 anos de existência). É de pensar que elas possam existir e que possam até ser várias. Mas até agora não são conhecidas fotografias anteriores a 1865-67 e as existentes desses anos e dos princípios da década de 1870 são ainda muito escassas, apesar de terem crescido em número em 2024 (2). E é por isso que é tão preciosa esta fotografia, até há poucos anos atrás única na sua especial abrangência. Em 2019, porém, foi divulgada a existência de uma outra (3), na posse de particulares, com uma perspectiva quase idêntica, mas ainda mais valiosa para a Figueira, no nosso entender, por ser claramente uns anos anterior a esta (4).

   Desta fotografia existe uma cópia do AFMFF com o carimbo seco dos fotógrafos "Ferreira & Borges", de quem não se sabia nada em 2019 quando este texto teve a sua primeira publicação, e que não se encontrava datada com precisão. Essa questão da autoria, que era um assunto problemático, já o deixámos resolvido em Setembro de 2024, com a atribuição então feita ao fotógrafo Francisco Carlos de Sousa Ferreira (depois Loureiro) – o fotógrafo que usou os carimbos secos “S. Ferreira” e "Ferreira & Borges", e que é o autor de outras fotografias que já se encontram referenciadas para o período dos finais dos anos de 1860 e começos dos de 1870 (5).

   E, enriquecida já pelo conhecimento da sua autoria, eis a importância excepcional desta fotografia: a de ser um dos raros testemunhos visuais de quase toda a Figueira ribeirinha do final da década de 60 do século XIX, já à beira dos 160 anos de vida, portanto.

   Para analisá-la com atenção é fundamental começar, antes de mais, pelo lugar da tomada de vistas: feita algures na via que na Figueira da altura se chamava o “Passeio” - no seguimento da Rua das Lamas, e que ia até ao chamado “Armazém da Companhia” (do carvão, de Coimbra) -, um pouco para lá do actual Largo do Tenente Valadim, e já na direcção do terreno, hoje vazio, do que foi durante décadas, no século XX, o armazém do Posto Náutico da Naval 1º de Maio. Veja-se como daí foi possível obter esta perspectiva tão abrangente da Figueira ribeirinha, com o mar e o Forte ao fundo. Parece escusado sublinhar o quão diferente era ela da que hoje vivenciamos, mas já não o será para a identificação das permanências, na grande maioria fáceis de situar: antes de mais, ao fundo, o torreão da Casa do Paço (escondido parcialmente pelos edifícios que só foram demolidos em 1921) a partir do qual não é difícil identificar a linha de construções, ainda existentes, para cá do Largo do Carvão (ficam escondidos parte do prédio Monsanto, hoje um Hotel, e os prédios da Praça Velha), até à Alfândega, e, logo a seguir, o grande prédio que foi da família Diniz, até chegarmos aos três edifícios-armazéns, em 1º plano, à direita, colados ao rio com os seus cais privativos. Os mais próximos foram demolidos com o aterro que deu a rua da República, mas o primeiro deles, no sentido do mar (6), ainda lá está (escondido pelas construções posteriores dessa rua, quase frente ao Café Nau), num estado crescente de degradação e abandono, apesar da importância histórica e simbólica que tem para a cidade  (do jardim do qual foi há poucos anos retirada - sem explicação conhecida - a imponente araucária que durante mais de um século marcou essa zona da cidade, e que era acessível a partir da entrada do mesmo, no início da Rua Direita do Monte).

  Uma nota final para a presença do movimento portuário, visível em volta do único Cais público existente: o que ia do Largo do Carvão até à Alfândega, nascido das obras camarárias e estatais levadas a cabo a partir de 1842.

  Falta fundamentar agora a datação que acima adiantámos, mas vamos deixá-la para o próximo post.


FM

Notas:

1) Ver sobre essa aquisição aqui e aqui.

2) Em Coimbra foram feitos os primeiros daguerreótipos sobre a cidade em 1842. No Porto, por exemplo, são conhecidos os trabalhos fotográficos pioneiros, sobre o quotidiano da cidade, de dois comerciantes ingleses: Frederick William Flower e Joseph James Forrester, activos nos finais da década de 40 e na de 1850. Por cá, e apesar da presença de várias famílias inglesas, nada parece existir com esse propósito, delas ou não, para lá de 1865-67.

3) Trata-se de uma cópia digital do original, dada a conhecer pelo Dr. Miguel de Carvalho, livreiro, e que foi publicamente divulgada, pelos Serviços do Museu Municipal, no folheto que publicitou a sessão “Arqueologia na Cidade”, ocorrida em 10 de Abril de 2019. Sabemos, entretanto, que em 2024 foi ofertado ao AFMFF o exemplar original.

4) Essa fotografia será objecto da nossa atenção num próximo post.

5) Ver as indicações deixadas na nota 1.

6) Um "casarão" construído em 1847 pela sociedade inglesa R. B. Whitiney C.ª, dos irmãos Bidgood Whitiney e John Tozer. “Os seus amplos armazéns comportavam 500 pipas” (Maurício Pinto, Ingleses na Figueira – A Voz da Figueira – 1/1/1954)

------

Este texto foi publicado originalmente no jornal "A Voz da Figueira", em 19/02/2020. Republica-se agora, mas com diversas alterações e acrescentamentos, que se impuseram para poder ser actualizado e ajustado ao contexto deste blogue.

Comentários