Uma outra preciosidade de S. Ferreira (Francisco Loureiro)

 Figueira,Figueiras - 8

   Na sequência do estudo da conhecida fotografia de S. Ferreira, que datámos de 1873 num texto recente (ver aqui), e que nos mostra a Figueira ribeirinha desse tempo no sentido E-O, apresentamos hoje esta outra fotografia, recentemente descoberta, que ligamos ao mesmo autor, e que vem documentar a mesma zona, mas agora no sentido inverso (O-E) (1)


Figueira da Foz - Frente ribeirinha - 1873 - atribuída a S. Ferreira (Francisco Loureiro) - col. particular

  Estamos na presença duma imagem inédita, com informação histórica nova e surpreendente e, por isso, com um valor patrimonial que é preciso compreender, já que não existia até aqui no espólio conhecido – no AFMFF ou em colecções particulares do nosso conhecimento - qualquer outra, para a época em causa, com esta abrangência documental.

   Vamos então às novidades que se revelam para a história da nossa evolução urbanística, e em particular, para um melhor conhecimento cronológico das profundas transformações produzidas pelas obras do porto e da barra, a partir, sobretudo, de 1869:

   Desde logo a revelação iconográfica da construção do Teatro Príncipe! É a primeira que o mostra e, ao que parece, num momento chave da sua construção exterior: a chegada ao fecho da estrutura de madeira do telhado de 4 águas – a sua cumeeira ou “pau-de-fileira” – em que assentarão depois, sobre as varas, as telhas de cobertura. O jornal coimbrão Tribuno Popular publicitou o momento desse fecho numa notícia de 30/4/1873:

           O teatro deve estar aberto dentro em pouco. Na segunda-feira ficou lançado o pau de fileira, pelo que os operários tiveram vinho, como é costume.

   Por razões de luz, não ficou muito definida na fotografia esta estrutura, mas o que se vê já levantado - mais nitidamente a sul -, não deixa razões que possam impedir o aceitar desse momento, dos finais de Abril de 1873, como elemento determinante para a datação aproximada desta fotografia.

   Depois existem nela outros elementos principais, que vemos a ajustarem-se cronologicamente, como seria de esperar: 

   - a reformulação do grande armazém da firma Águas & Filho, junto à parede poente da Casa do Paço (e é tb a primeira imagem que conhecemos a documentá-lo), iniciada em Fevereiro ou Março desse ano; 

   - a fase de acabamento da pintura da casa de António Dias dos Santos – a seguir a uma casa que vemos em primeiro plano, à esquerda da imagem (onde se construiu depois a casa hoje lá existente, da família de Vítor Pais) -, com a construção pedida, na Câmara Municipal, em 30/9/1872; 

   - o estado de conclusão da longa couraça que veio terminar no “quebra-mar da Praia da Fonte" (2), e que, na altura, eliminou o que ainda restava da antiga Praia do Forte (que o Eng.º Silva começou a destruir, a partir de 1857, com as obras do paredão que levantou a nascente desse monumento). Em paralelo com ela são visíveis as obras de regularização do amplo espaço conquistado, onde já se vêm plantadas as primeiras árvores que se encontram a ladear uma nova rua - a “rua direita da Barra”; 

   - e, por fim, ao fundo, frente às obras do Teatro, a presença visível da ponte de serviço que garantia a construção do troço da couraça do paredão nascente da Doca, que culminaria, meses depois - em finais de Agosto -, com a chegada ao paredão do Cais Novo, que vinha avançando, já com mais de 400 metros de extensão, na direcção do poente, e cujo fecho circular – o seu musoir - se encontra ainda hoje presente, como memória, no extremo nascente da Doca actual.


Figueira da Foz - Musoir do Quebra-Mar da Praia da Fonte - 1873 - atribuída a S. Ferreira (Francisco Loureiro) - col. particular

  No lote adquirido, esta imagem surge complementada por esta outra, do mesmo autor, como se depreende, e do mesmo dia, certamente feita para evidenciar de forma destacada, pela sua importância para a regularização das correntes do interior do porto, a quase conclusão por essa altura do quebra-mar da Praia da Fonte referenciado (3), imagem que, por isso, e também com entusiasmo, divulgamos.

FM

Notas:

1) Faz parte dum lote de 14 fotografias, em óptimo estado de conservação, que foi recentemente adquirido, e que temos vindo a divulgar.

2) Assim lhe chamou o seu autor, o Eng.º Adolfo Loureiro, na obra que publicou em 1874 – Sobre o Mondego e Barra da Figueira (p120-122).

3) Não deveria estar acabado na sua face nascente - onde foram encostados um estaleiro e uma rampa de alagem -, já que na obra que assinalámos na nota 2, o seu autor ainda não o dá como totalmente concluído nos finais de Junho de 1874.



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