Figueira, Figueiras - 7
Esta é, sem dúvida, uma das maiores preciosidades da fotografia figueirense, que desde que foi publicada no Álbum Figueirense, em 1935 (1), foi sendo publicitada na imprensa local, embora nem sempre pelas melhores razões (2). A sua excepcionalidade advém não só da sua notabilidade técnica, mas também daquilo para onde parece remeter e que está para além do que regista - a sua notabilidade ideológica e documental.
Destaca-se nela, desde logo, a tomada de vistas (3). Repare-se na sua angulação e no plano relativamente elevado em que ela foi realizada. E logo uma questão se impõe: e onde era possível consegui-los? E a resposta é óbvia: somente no interior do aterro do Cais Novo, que na segunda metade do ano de 1870 e primeira de 1871 já tinha avançado o suficiente para que, em 7 de Julho deste último ano, o Estado pudesse ceder dele 860 m2 para a construção nele duma primeira grande edificação: a do Teatro Príncipe D. Carlos (4)!
Uma tomada de vistas, então, já feita a partir da varanda da fachada do mesmo? Poderia ter sido, mas não! Nada mais existia em volta de edificado que a pudesse permitir, é certo, e parece ser legítimo acreditar que o fotógrafo sabia bem que em tal panorâmica não seria apenas a nova face ribeirinha – e o início de uma outra sua transformação - que ficaria documentada e homenageada, mas quando a mesma foi tirada ou o edifício estava ainda bastante atrasado, ou essa hipotética homenagem não fazia parte dos planos do fotógrafo (5), que, supomos, se terá socorrido, simplesmente, de um andaime ou duma outra estrutura elevada do estaleiro das obras.
Que motivação? Cremos que a de assinalar a presença marcante, e transformadora para a Vila, de quatro realidades bem recentes: à esquerda, e até ao Forte, o avanço das obras de melhoria das condições do porto, incluindo o arranque da nova Doca de abrigo, a sul do edifício antigo onde em 1874 se inaugurou o Hotel Reis (6); num primeiríssimo plano, em baixo, a existência do novo pano da couraça necessária ao suporte Oeste do aterro do Cais Novo – para onde a imagem remete, via fotógrafo -, e ao longo da qual se percebem já estar dispostas diversas embarcações; à direita e para cá do Paço, e em frente à Praça do Comércio, a novidade dos dois barracões que vieram ampliar e disciplinar o velho Mercado da Ribeira, já prontos exteriormente no princípio de 1872 (7), mas sem a concretização da sua divisão interna (janelas, portas e mobiliário) - que se arrastou por largos meses -, situação que parece anterior à da imagem, onde se veem já em pleno funcionamento; e por fim, já para cá do edifício da Alfândega e do Cais e rampas próximas, a novidade do vasto rossio que o fecho e ampliação do Cais Velho (em 1869-1870) criou, a sul da Praça Nova, onde vemos, em espera de embarque, na zona fronteira aos três magníficos e icónicos edifícios ali existentes, várias pipas de vinho. E, nesta zona, repare-se num aspecto da maior relevância para a datação da fotografia: a inexistência nela dos carris da linha do “Americano” – a via de transporte procedente do Cabo Mondego mais tarde veio “desaguar” no Cais Novo. A autorização foi dada pelo Governo em 17 de Setembro de 1874 (mas só na segunda metade de Novembro pela Câmara Municipal). É provável que as obras tenham arrancado ainda em Dezembro de 1874, já que a inauguração se verificou em Dezembro de 1875 (serviço de mercadorias) e em Agosto de 1876 (serviço de passageiros) (8). Não é conhecido em pormenor o ritmo da construção da linha, e em particular, no que respeita ao troço Praia da Fonte-Cais, mas parece provável que a implantação do estaleiro e dos carris nesta zona se tenha verificado ainda em 1874. A fotografia tem de ser anterior a esse momento, portanto.
Para se poder apertar a malha do tempo, olhemos agora para uma área da imagem, ao fundo, onde parece estar muito adiantada uma obra importante para o plano das obras do Porto (do Eng.º Adolfo Loureiro, de Abril de 1869) e em execução: o quebra-mar da Praia da Fonte. Num seu escrito, fechado em Julho de 1874 (9), o Eng.º Adolfo dá-o como quase concluído em Julho do ano anterior. Olhando a foto verificamos que o que vemos corresponderá a essa etapa final - a do revestimento pétreo exterior da cabeça do molhe, já iniciada. A nascente dele e mais próximo de nós, somos confrontados com um outro elemento fulcral: o do arranque e avanço inicial da construção do paredão ocidental da Doca, e que não conhecemos documentado em mais nenhuma outra fotografia! Não conhecemos fontes concretas sobre o arranque desta obra, mas numa crónica enviada da Figueira e publicada num jornal de Coimbra (10) diz-se “que já se está construindo, junto ao viaduto da praia da fonte, o paredão ocidental, que deve fechar a doca do cais, e que se estenderá pelo rio dentro”, o que nos deixa a margem de confiança suficiente para, conjugando todos estes factos, atribuirmos a fotografia à segunda metade do ano de 1873!
FM
Notas:
1) A ilustrar o artigo de José da Silva Fonseca, O Velho Mercado da Praça da Ribeira, Ano II, Nºs 3-5. Na legenda da mesma o autor escreveu: “A Figueira no terceiro quartel do século XIX (...)”, o que está correcto, como veremos, mas era muito vago:
2) Em demasiadas situações foi publicada truncada, sem respeito algum pela sua identidade e qualidade artísticas.
3) Como se repara estamos perante uma fotografia composta, resultante da junção rigorosa de 2 fotografias, o que não lhe diminui o mérito, antes o amplia...
4) Diário do Governo, 7 de Julho de 1871. A inauguração das fundações verificou-se em 18/1/1872, e a do Teatro em 8/8/1874.
5) Há que convir que essa tomada de vistas seria muito mais limitadora na sua abrangência visual, e o conjunto das fotografias obtidas não conseguiria o impacto deste…
6) Rui Cascão, Figueira da Foz e Buarcos, 1861-1910 – Permanência e Mudança em duas comunidades do litoral,1998, p.291.
7) AMFF, Livros de Actas da CMFF, L28, fl.235, de 10 de Janeiro de 1872.
8) Concretizando-se assim em doze meses uma obra que tinha um prazo de construção de vinte.
9) Adolfo Loureiro, Memória sobre o Mondego e Barra da Figueira, 1874, p.121.
10) Tribuno Popular – 3/12/1873.


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