O problema das Datações (VII) – A fotografia aérea de José Cabral...

 

Figueira da Foz - Vista aérea - 1921 - Cliché do Tenente José Cabral (col. AFMFF)

   Deixámos propositadamente em aberto, no post anterior, a questão da datação da fotografia aérea da Figueira publicitada em 1922. O ter sido publicada nesse ano não era garantia de que a imagem a ele correspondesse. Fomos ver e levantaram-se questões que são deveras importantes para um melhor esclarecimento da evolução urbana da cidade no momento da fotografia.

  À partida, poderíamos pensar num intervalo de tempo que, no mínimo, nos levaria a 1916, ano em que o autor, o futuro Tenente José Cabral, ingressou na Escola Naval e, logo a seguir, nas forças da Aviação Marítima, criada em Setembro de 1917. Não sabemos quando obteve o seu brevet (mas foi em França ou Itália, é certo), nem quando pôde iniciar os voos como piloto dos hidroaviões que operavam em Portugal nos anos do final da 1ª Guerra Mundial (1914-18) e início da década seguinte (1). Mas estamos perante uma fotografia documental, ou seja, que é portadora de um conteúdo sobre a cidade que admite mais facilmente a realização de uma “crítica interna” ou, dito de outro modo, uma análise histórica que nos encaminhe para uma datação rigorosa, assente nas evidências da imagem.


Figueira da Foz - Vista aérea - 1921 - Pormenor do cliché do Tenente José Cabral  (col. AFMFF)

  Olhemos então a fotografia, à procura dos elementos determinantes! E logo nos saltam três!: a presença ainda, no Largo do Dr. Nunes (frente à fachada poente da Câmara Municipal), das ruínas do piso térreo do Teatro Príncipe, ardido no Carnaval de 1914. O piso superior, que ameaçava ruir, foi-lhe retirado em Julho de 1919; a seguir, reparamos na presença junto ao barracão do Parque-Cine, da estrutura elevada do Palco, começado a construir em Abril de 1920; por fim, e mais importante que eles, a ausência quase total, frente à Casa do Paço e no lado ocidental do Largo do Carvão, das figuras dos dois velhos casarões que aí existiram (2) e que foram alvo de demolição na 1ª metade de 1921! Pelo que se vê, percebemos que ainda não foi realizada na totalidade a demolição do edifício que se situava mais a oriente (3).


Figueira da Foz - Vista aérea - 1921 - Pormenor do cliché do Tenente José Cabral  (col. AFMFF)

  Já não vale a pena, como se percebe, procurar na imagem outros elementos fundadores da datação que procurávamos. A fotografia não é mesmo do ano da sua publicação! É do ano anterior, de 1921, presumivelmente tirada nos começos do mês de Maio, como a exuberância vegetal do Jardim Municipal corrobora e uma notícia do jornal “A Voz da Justiça” também (4). E é a única, até ao momento, e que saibamos, a fazer a memória da quase conclusão desse passo tão desejado para a libertação do trânsito e para a valorização urbanística daquela zona ribeirinha da cidade!

FM

Notas:

1) Muitos dos quais das forças francesas que operavam em Portugal a partir da Base Aérea Militar de S. Jacinto, criada em 1917, para ter actuação directa nesse quadro de guerra.

2) O mais oriental, próximo do ancoradouro da Laje da Chumba, já foi aqui apresentado. O mais ocidental, foi onde durante mais de duas décadas funcionaram sucessivamente o Hotel Reis e o Hotel Universal.

3) O jornal local A Voz da Justiça noticiava em 4/2/1921: “… vão abaixo na próxima segunda (...)".

4) O jornal relatava em 6/5/1921: “Uma já lá vai; a outra está quase em terra”.




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