Esta é para nós uma fotografia realmente extraordinária, que desde a sua descoberta, há muitos anos atrás, na montra do Estúdio Cruz, e posterior aquisição, não cessa de nos impressionar. Voltar a olhá-la é sentir a mesma impressão seminal e derradeira do começo: a de se estar perante um grandioso espectáculo do tempo, quer o da imagem em si, claro, mas sobretudo o da cidade na sua implacável dinâmica expansionista.
Mais do que noutros momentos, face ao espanto, colou-se de imediato a pergunta: quando?, só depois apelando, no abandono do foco branco e central que é o Estádio, para toda aquela vastíssima dimensão envolvente.
Do trabalho que mais tarde encetámos para responder à questão apenas referiremos alguns pormenores, os suficientes para situarmos a imagem no tempo e percebermos melhor a importância documental dela para a cidade, como verdadeiro retrato que é dum primeiro momento determinante e pioneiro da expansão da cidade na direcção do norte, com os resultados que conhecemos e hoje vivenciamos.
A imagem foi feita para nos mostrar, como vedeta, o novíssimo e desejado Estádio Municipal, uma construção que vinha corresponder a vários anseios locais, já com raízes em 1915, e após 7 anos – e só até até esta fase, depois do arranque das terraplanagens em Maio de 1948 - de atribulados e difíceis avanços da construção (1).
A ambição da Câmara, desde 1946, aquando do início da presidência do Dr. Álvaro Malafaia, ia muito além do corpo central que seria o Estádio, ele próprio bem ambicioso: com degraus e bancadas, relvado, pista de atletismo e uma de ciclismo! Em volta campos de ténis, de basquetebol e voleibol, e um ringue de patinagem, fazendo um complexo: o “Campo de Jogos Municipal”. Como se percebe, um projecto que ia muito para além das muito limitadas possibilidades financeiras camarárias e mesmo distritais. Não espanta por isso que a sua concretização nunca tenha ocorrido e que o “sonho” se tenha materializado unicamente na construção com limitações do Estádio, que acabou por não ter, face a isso, nem o relvado previsto, nem a pista de ciclismo...(2)
Às peripécias da sua construção não nos referiremos com pormenores (3). Basta dizer que depois do arranque da construção em 1952 só no início de 1955 foi adjudicada a empreitada da pintura total da construção e a colocação de portões, que só em Junho desse ano foi dada como terminada. Ora o voo da fotografia o Afonso Costa Cruz foi encontrá-lo precisamente nesse momento – o da pintura “novinha em folha” e do arranjo do “pelado” –, e já com as terraplanagens envolventes a permitirem uma circulação provisória, antes da abertura do concurso para a construção dos degraus, bancadas, esgotos e arruamentos, só começados em 1956. Estava-se portanto no ano de 1955, poucas semanas antes da inauguração forçada - “por natureza”… - do mesmo (4).
Mas a força maior da imagem vem da relação que a figura central do Estádio estabelece com todo aquele contexto envolvente, quase que explicitando o papel desbravador por ele desempenhado naqueles terrenos que foram pertença, na maior parte, da Companhia Mineira do Cabo Mondego, que veio a empurrar a cidade para a estrada de Tavarede-Buarcos, e mais tarde para a sua superação. Repare-se que a poente do Estádio já se encontra esboçado o prolongamento da rua Joaquim Sotto Maior até esta estrada (de 1954, mas só alargado e terraplanado em 1957) para poder desempenhar o seu papel de eixo de ligação estruturante.
Do que ocorreu nas décadas seguintes, nessa área imensa que nos leva até Buarcos e ao mar, não pode falar a fotografia (5), mas ela é fulcral para nos fazer compreender alguns dos caminhos que a expansão urbana tomou depois - particularmente nas décadas de 80 e 90 - face aos interesses imobiliários poderosos que então emergiram e às conjunturas políticas, com os resultados que temos hoje e que estão longe de serem consensuais.
FM
Notas:
1) Depois de abandonada a ideia da sua construção no sítio que fora o do Parque de Jogos do Pinhal, de que falámos anteriormente.
2) A de atletismo veio a existir, em pó de tijolo, mas muito limitadamente. O desejo do relvado esperou décadas, até ao início da década de 80. Outras obras complementares importantes ocorreram depois, em 2005 e 2012, antes da muito recente (2019-21) melhoria geral de vedações, portões e instalações, a par da opção pela relva artificial.
3) Para maiores desenvolvimentos veja-se o texto que elaborámos para a “Agenda Municipal” (CMFF) do 3º Trimestre de 2015 – “Os 60 anos do Estádio José Bento Pessoa”.
4) Assim o referiu o jornal “A Voz da Figueira” de 6/10/1955, constatando que perante o encerramento do anterior Campo da Mata, e perante o adiantado das obras, outra coisa não poderia fazer-se que não fosse a abertura provisória do Estádio de forma a que o Ginásio e a Naval pudessem disputar o Campeonato Distrital que estava para arrancar… E assim foi, com o 1º jogo oficial – o Ginásio 3 – Lousanense 0 – a ser disputado em 2 de Outubro de 1955 (com a instalação provisória das bancadas das regatas no Estádio) - há 70 anos, portanto.
5) E ficamos sem espaço para abordarmos o que de transcendente ela mostra, desde o casario praticamente completo de Buarcos, Fábrica de Cimento e Serra, até à larga zona do Patracol, passando pela única imagem de conjunto que conhecemos das instalações da velha Fábrica de Cerâmica que deu o nome à zona do "Alto do Forno". Mais perto do Estádio a presença parcial da área de algumas velhas quintas (destas o destaque terá de ir para a Quinta da Calmada, onde no início dos anos 60 se veio a instalar o Parque de Campismo).
Muito bem!
ResponderEliminarObrigado. Viu o nosso agradecimento no post "Uma Panorâmica invulgar" e o pedido então feito?
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