A Fonte dos Soldados - Carlos de Avellar

 

Figueira da Foz - Fonte dos Soldados e Linha do "Americano" - cliché de Carlos de Avelar-c. 1876
Photographia Lisboa & Açores (col. AFMFF)

   Regressamos a Carlos de Avelar e à importância documental de algumas das suas fotografias figueirenses, editadas no tempo do seu estúdio lisboeta - a “Photographia Lisboa & Açores”.

   O exemplo que trazemos hoje é disso bem significativo: trata-se da imagem mais antiga que conhecemos – e cremos que única - da chamada Fonte dos Soldados, que como se percebe – na imagem é a pequena construção existente no lado direito do observador - existiu bem próximo da zona marginal da praia, numa zona que podemos dizer que quase correspondia ao enfiamento poente da antiga rua dos Banhos (hoje Maestro David de Sousa), que, mais tarde, se veio a tornar uma zona privilegiada para aceder à praia.

   Será difícil não relacionarmos a denominação desta Fonte com a presença próxima da guarnição do Forte de Santa Catarina, sobretudo sabendo que antes dos meados dos anos 60 do século XIX todos aqueles subúrbios mais próximos não eram mais que pedras, areias, agaves e vinhas, com muito escassa presença humana. Para a população da Vila, as Fontes principais eram outras: a do Largo da mesma, no Paul (Abadias); a da rua da Bica (hoje Bombeiros Voluntários); a “Nova”, no bairro de S. João do Vale, e, já mais afastadas da zona urbana, as da Várzea, Lapa e Tavarede.

   Mas o valor da Fonte dos Soldados cresceu com o desenvolvimento do Bairro Novo de Santa Catarina, sobretudo a partir de 1868, e por isso não devemos estranhar que em 1869 a Câmara tenha avançado com obras no pequeno edifício de protecção da mesma, ao mesmo tempo que garantia que a sua utilização, nessa altura do foro privativo das Obras Públicas, passasse para o público em geral (1). Nos anos de 1887-89 a Câmara conduziu as obras de alargamento do troço do “estrada” marginal presente na imagem, necessárias para poderem ser construídas duas amplas rampas e escadarias de acesso à praia e à Fonte, que aparecerão depois muito representadas nas fotografias dos começos da década de 90 (Carlos Relvas e outros) (2).

Figueira da Foz - Praia e Linha do "Americano" - cliché de Carlos Relvas - c. 1891
(col. AFMFF)

   Dos tempos que se seguiram não conseguimos ainda obter os pormenores. Não era de monta a edificação e a Fonte foi desmerecendo a atenção dos fotógrafos. Suspeitamos mesmo que já começado o século XX se tenha demolido a construção que protegia o poço, ou por a Fonte se ter tornado obsoleta, ou por outras razões, eventualmente ligadas à qualidade ou quantidade das águas (3). Do que temos provas concretas é da construção, em 1924-25, por decisão (em 3/6/1924) da Comissão de Iniciativa da Figueira - sob o risco e direcção do construtor local António A. Pires Sangalho -, dum denominado “Pavilhão de Chá” ou “da Praia”, sobre o poço da Fonte (4), que em meados de Julho desse ano foi inaugurado e alugado à firma proprietária do Grande Hotel Universal, para a sua exploração comercial (5). Para se poder aferir melhor da localização e da dimensão dessa obra juntamos uma imagem feliz de José dos Santos Alves (Casa Havanesa) que o autor deixou datada: 28/8/1934.


Figueira da Foz - Praia e Pavilhão de Chá - Cliché de José dos Santos Alves - 1934
(col. AFMFF)

   Para terminar, só faltará mesmo voltar a Carlos de Avelar e à preciosidade fotográfica que nos legou. Como se vê, alguém procedeu - e de forma muito infeliz - à inscrição na fotografia de uma data, “1869”, o que é de todo absurdo, uma vez que sabemos que a instalação da linha do “Americano” que se vê na imagem implantada à esquerda da Fonte, foi iniciada em Dezembro de 1874, e só foi aberta ao tráfego das indústrias do Cabo Mondego no final de 1875! Portanto a imagem terá de ser de 1875 ou posterior. Devido a dois outros trabalhos seus, sabemos que o autor esteve na Figueira no final de 1875 ou nos começos de 1876. E, pelo que já pudemos inferir, estamos convencidos que esta será uma imagem do lote que o fotógrafo colheu nessa sua primeira estadia.

FM

Notas:

1) “Deu parte à Câmara o sr. Vereador Oliveira de ter solicitado do Eng.º Director das Obras da barra a chave da fonte denominada “dos soldados”, propriedade desta Câmara, e que aquele sr. lha tinha entregado para ter a água da mesma fonte facultada ao público”. Foi aprovado este procedimento e decidido proceder a reparações na Fonte. Ficou ainda lavrado na mesma Acta: “deve o sr. procurar pessoa idónea que nas proximidades da dita fonte resida, para ser encarregada da respectica chave” - Livro de Actas nº 17, CMFF, 30/3/1869.

2) Gazeta da Figueira - 31/7/1887: Na Fonte dos Soldados contígua à praia de banhos, foi construída uma cortina de alvenaria com degraus para a fonte, e mais fácil comunicação para a praia;

Correio da Figueira - 17/7/1889: Procede-se ao acabamento (?) da serventia da praia dos banhos, obra que no último ano já (!) aborreceu grandemente os banhistas pelos embaraços que lhes causou.

3) Convém ter presente que o abastecimento público canalizado de água e a sua disponibilização pública através de fontanários foi inaugurado, na Figueira, mas só provisoriamente, a partir de Setembro de 1889.

4) 



https://arquivo.cm-figfoz.pt:8443/xarqdigitalizacaoContent/Documento.aspx?DocumentoID=44314&AplicacaoID=1

5) Revista Europa - 15/7/1925




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