A Figueira dos BPI - A Torre do Relógio - Um protesto de Manuel dos Santos?


Figueira da Foz - Aspecto geral da Praia - 1946 - Ed. CMTFF, c.1947 - cliché de Manuel dos Santos
 (col. particular)

   Regressamos a esta rubrica com um BPI deveras especial, em grande parte, quanto a nós, pelo modo como soube vincar, em protesto, uma certa fealdade! Creio que não conseguimos olhá-lo sem sentirmos a face do paradoxo que parece ter presidido à sua elaboração: não ser o instrumento habitual de glorificação da paisagem representada mas, pelo contrário, afirmar-se como uma espécie de montra reveladora duma aberração arquitectónica - que o fotógrafo Manuel dos Santos, seu autor, e que isso achava (1), bem destacou, à esquerda do observador -, perturbadora da amplidão e beleza daquela paisagem.

   Estava-se no Verão de 1946 (2) e contra a vontade de um largo número de figueirenses via-se erguida e a caminho da sua conclusão, frente à Esplanada, aquela Torre, no extremo norte do primeiro troço da nova muralha da Praia e da Avenida Salazar que havia sido iniciada, com verbas estatais, no Verão de 1942.

   Foi no Verão de 1943 que as obras da Torre arrancaram (3) e logo em Outubro o jornal “Notícias da Figueira” já alertava para o que achava que a Torre ia ser: “um obstáculo ao gozo do panorama que se abrangia da varanda da Esplanada (…) pois que ela atrai a retina, diminuindo o quadro de maravilha que se gozava livremente”. Dois anos depois, e perante o avanço da coluna da Torre (sobre uma área destinada a restaurante) as críticas deste jornal aumentaram de tom: via-se “a ser construída na presença do espanto e da decepção de quase toda a gente da terra e dos banhistas que vão chegando e que não encobrem a sua repulsa perante manifestação de tão mau gosto”(4) e em Setembro desse ano dizia-se mesmo que a mesma provocava “a indignação de toda a gente”, perante o “atentado contra o mais grandioso panorama da cidade”(5). A 27 de Outubro de 1945 seguiu para o Ministro das Obras Públicas um documento de protesto, assinado por centenas de cidadãos, muitos deles dos mais influentes da cidade, que considerava a Torre "um paspalho em frente dos olhos, oferecendo a mesma horrenda perspectiva que poderá oferecer um poste ou uma régua no 1º plano de um amplo e formosíssimo quadro, cindindo a meio todas as suas belas e amplas perspectivas" . Na sequência disso o ministro deu ordem “para que não se completasse a Torre com a escada no seu interior até que se tome uma definitiva decisão” (6).

   Do que se seguiu depois não dispomos de fontes nem de pormenores, mas percebe-se por esta fotografia e por outras tiradas nesse ano de 1946 ou no seguinte, que a obra permaneceu numa letargia que só terá sido quebrada em 1948, quando terá chegado a ordem ministerial que impôs a sua conclusão.


Torre da Esplanada em final de construção - 1948 - cliché de José dos Santos Alves (col. AFMFF)

   A imagem da Casa Havanesa que juntamos documenta precisamente essa fase final – a da construção do seu topo - e, felizmente, foi datada pelo seu autor: 17 de Março de 1948. Mas só em 19 de Fevereiro do ano seguinte deu o jornal “O Figueirense” a notícia da conclusão total da Torre, ao assinalar o final da colocação no seu topo de um Relógio de Sol com 2 mostradores: um virado a norte e outro a sul. E concluía, com a ironia agastada que se subentende: “(…) verifica-se, finalmente, alguma utilidade na decantada torre”. 

   Mas foi outra ainda a utilidade da, a partir daí, chamada “Torre do Relógio”: a de se tornar numa realidade arquitectónica assinalável, que a Figueira dos anos 50 e 60 soube incorporar, tratando-a como um ícone, no quadro da sua propaganda turística, como elemento de valorização simbólica identificador da Cidade, da Praia e da Esplanada, todas viradas para o mar e para a Serra.


FM

Notas:

1) Manuel dos Santos foi um dos subscritores do documento de repúdio da obra enviado ao Ministro das Obras Públicas, que referiremos adiante.

2) Este BPI integrou uma colecção editada pela Comissão Municipal de Turismo, provavelmente no ano de 1947, mas a fotografia será do Verão anterior – só em 2/8/47 foi feita a adjudicação do troço de muralha entre a Torre e a escadaria central, a norte, de que não se vê na imagem o mais pequeno sinal.

3) Existe no AFMFF uma colecção magnífica de cerca de 7 dezenas de fotografias, que documentam as diversas etapas de construção da Torre, da autoria de José dos Santos Alves, e por isso pertencentes ao espólio da Casa Havanesa. A sua consulta pode ser feita on-line na plataforma “X-arqWeb-Figueira da Foz".

4) Jornal Notícias da Figueira, 14/7/1945. Críticas semelhantes foram feitas também no jornal O Figueirense.

5) Jornal Notícias da Figueira, 1/9/1945 e 27/10/1945.

6) Jornal O Figueirense, 15/09/1945.


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