Outra preciosidade de Francisco Loureiro...

 Figueira, Figueiras 15


Figueira da Foz - Praça Nova e Cais - 1870 - cliché de Francisco Ferreira Loureiro (col. particular)

   Avançamos neste ciclo com um outro exemplo do melhor que a iconografia oitocentista figueirense tem: uma bela fotografia, da Praça Nova-Cais, num momento fundamental da nossa evolução urbana. Trata-se de um importantíssimo cliché - que sabemos hoje (há menos de um ano) ser de Francisco Loureiro -, não só pelo seu feliz enquadramento, mas também pela sua enorme relevância documental: a de nos dar a conhecer, de forma única, um momento da fase final do prolongamento do Cais Velho e da fase inicial da construção do Cais Novo da Figueira, obras integradas no esforço estatal de construção de melhoramentos para o Mondego, o Porto e a Barra, que com fases e planos vários – o Plano deste último, da autoria do Eng.º Adolfo Loureiro, era de Abril de 1869 -, há praticamente dois séculos se encontrava em lentíssimo desenvolvimento.


   Percebe-se, por isso, que o autor dedique mais de metade da imagem ao avanço e fecho da construção da couraça de prolongamento do Cais Velho (inicialmente frente à Alfândega), feita para permitir o aproveitamento do espaço da antiga zona de praias, rampas e pequenos cais avulsos, que existiam a sul da Praça Nova da Alegria. Depois desse troço de bela e branca pedra aparelhada, percebemos que está em arranque de construção a 2ª rampa de serviço – a do seu topo Este -, na zona de intersecção com uma outra couraça, ainda por erguer (a partir do troço do muro de contenção que criou a Praça nos finais do século XVIII, e que ainda é visível à direita da imagem) na direcção do Sul, para se ligar ao outro molhe desse Cais Novo, que então avançava, vindo de Este, na direcção do mar.


  Como se percebe, estas obras de vulto eram determinantes, e foram por isso muito desejadas e festejadas pela burguesia local, já que vinham romper de vez com as tradicionais limitações portuárias da frente ribeirinha, e criar, de acordo com a urbanística moderna, uma enorme e desafogada área de expansão, tomada ao rio, que se veio a tornar (e ainda o é na cidade de hoje) no coração comercial e de serviços da Vila de então: o chamado Bairro do Teatro. Os antigos cais e couraças ribeirinhas da Vila e esta nova estrutura foram depois aproveitados para ladearem parte da Doca de protecção e fundeadouro de embarcações, que se construiu e de que já falámos em publicações anteriores.


   Mas a imagem vai mais longe ao dar-nos uma perspectiva inédita da parte central e oriental da Praça Nova da Alegria ou 8 de Maio, após a realização das várias obras de melhoramento (1) que se estenderam e vieram ligar-se à nova área conquistada para o Cais. Faz ainda a memória de aspectos que são hoje iconograficamente raros e essenciais: não tanto a existência, ao fundo, da casa de Nestório Dias, ainda existente (de 1864, e onde pouco depois abriu, como se vê, o importante “Café Central”), mas mais pela presença das quatro casas que lhe ficavam contíguas a Este - de estilos arquitectónicos muito seguidos na Vila desde setecentos – e já não existentes. Mas mais ainda, e já para cá da Ladeira do Monte: pela presença – com todo o seu valor histórico-simbólico - do “casarão” seiscentista, conhecido depois como Casa do Tribunal Velho   (também propriedade, nessa altura, da família Nestório), ainda existente e que todos bem identificamos, onde no final de 1865 se instalaram a Câmara, o Tribunal, o Telégrafo e outras Repartições Públicas (e onde já existiam e continuaram a existir espaços comerciais de referência para sucessivas gerações de figueirenses); e pela presença, logo a seguir (sentido sul) da casa de raiz quinhentista, conhecida na altura como “Casa do Senhor da Vida” (vendida em 1864, e nesse ano transformada no Hotel Figueirense, que em 1901 sofreu a transformação da fachada que, no essencial, ainda hoje se mantém). Repare-se como a ela se adossava, a sul, o muro do que era o seu quintal. Foi lá que em 1873 se começou a construir o chamado “prédio do Redondo”, do negociante Bernardino Ferraz, depois prolongado, e ainda hoje tão icónico e tão arquitectonicamente relevante para a zona e para a cidade (2).


   Resta-nos agora contribuir com algumas achegas para a datação desta imagem (3). E também aqui o valor documental do que nos é revelado é insubstituível! Repare-se no que se passa no centro da Praça: dois trabalhadores afanam-se no arranjo de um pedaço de chão, aparentemente após a abertura de um buraco de boas dimensões, ao lado do qual e assente num suporte excêntrico repousa o objecto das suas preocupações: o que julgamos ser a coluna de um candeeiro de iluminação pública! Certamente um dos do primeiro lote de 38 (8 colunas e 30 consolas), alimentados a petróleo, que foram encomendados pela Câmara Municipal à Companhia Perseverança, de Lisboa, e que foram embarcados na capital a 4 de Maio de 1870 (4) e inaugurados no dia 31 de Julho seguinte (5). Eis-nos, pois, perante uma realidade documental fundamental para nos permitir fixar, com relativa segurança, o ano desta fotografia: 1870 (Junho, provavelmente...) (6)!

FM


Notas:

1) Que decorreram em 1865, e que levaram à plantação das primeiras árvores, à colocação dos primeiros bancos e à melhoria do pavimento (AMFF, Actas da CMFF, L25: fl.40, de 11 de Fevereiro de 1865; fl. 173, de 22 de Agosto de 1865).

2) Para além do valor arquitectónico, releva-se também pelo seu valor simbólico: foi nele que nasceu, em 6 de Maio de 1880, o maestro David de Sousa.

3) No AFMFF são-lhe atribuídas, sem mais, duas datações diferenciadas: 1867 e 1871.

4) AMFF, Actas da CMFF, L28, fl.41, de 14 de Maio de 1870.

5) Tratam-se dos primeiros candeeiros e consolas de iluminação pública que na Figueira se instalaram, embora não se saiba ainda, com precisão, em que locais.

6) Na ausência actual de outros dados documentais mais irrefutáveis, olhando apenas à vitalidade das copas do arvoredo visível e aos indícios fornecidos pelo vestuário dos passageiros da embarcação que vemos em primeiro plano, e que parecem indiciar a vivência de uns primeiros calores…






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