Em Outubro de 1874, a edição número 10 do Panorama Photographico de Portugal é ilustrada com a fotografia do Convento do Bussaco que aqui reproduzimos. A notícia histórica e descritiva do Convento do Bussaco que acompanha a fotografia é de autoria do editor da publicação, Augusto Mendes Simões de Castro, o mesmo que um ano depois vai também editar o Guia Historico do Bussaco (1).
Dois meses depois, em Dezembro de 1874, a edição número 12 é ilustrada com uma fotografia da Fonte Fria, no Bussaco. O texto que acompanha a fotografia, de Augusto Filipe Simões, faz uma descrição da mata do Bussaco antes das obras realizadas à época que, em sua opinião, vieram alterar significativamente a essência do lugar. Concluía do seguinte modo:
“Um principio geral dominava, portanto, todas as obras da arte que se faziam no Bussaco: - imitar fielmente a natureza, e não estragar os seus quadros majestosos com o luxo das construcções e com o abuso da regularidade e symetria. Era essa a principal beleza da matta e a causa das impressões graves e austeras que ella produzia no animo d’aquelles que a visitavam. O Bussaco era um templo, onde a idêa da Divindade se impunha clara e evidente ao espirito com a logica da natureza, mais forte, mais irresistível que a dos artifícios humanos.
(...)
Entre todas essas obras, com que modernamente têm deturpado o venerado aspecto do Bussaco, prima e sobresahe, pela incongruência e disformidade, o agigantado e descomunal escadório da Fonte Fria que a nossa estampa representa. A eloquência da photographia dispensa-nos de comentários particulares a esse ponto” (2).
Surpreendem as duas referidas fotografias do Bussaco, no contexto das 47 fotografias publicadas pelo Panorama Photografico de Portugal (1869-1974), pela encenação das personagens fotografadas. São as mesmas pessoas que se deixam fotografar nas duas imagens, com a curiosidade de que uma delas, provavelmente com a cumplicidade de um seu assistente, é o próprio autor das fotografias, José Maria dos Santos responsável pela Photographia Conimbricense. José Maria dos Santos, de barba escura, calças e chapéu claro, encostado ao muro da escadaria que conduz ao convento, teria à época cerca de 42 anos. Ele partilha o espaço fotografado com um outro nosso conhecido, parece ser Francisco Ferreira de Loureiro, sentado encostado à cruz de pedra no cimo da escadaria. Francisco Loureiro então com cerca de 35 anos foi nessa época condutor de obras públicas na Figueira da Foz, mas também fotógrafo amador.
Em 1883, A. M. Simões de Castro, publica uma segunda edição do seu Guia Historico do Bussaco. A nova versão actualizada, é ilustrada com quatro gravuras, mais duas relativamente à primeira edição. Na descrição dos vários pontos de interesse do Bussaco, refere-se à reconstrução com nova traça da Fonte do Carregal pelas mãos de Francisco Loureiro que desde os finais da década de 70 era já silvicultor no serviço da Divisão Florestal do Norte e, desde o início da década de 80, encarregue da condução dos trabalhos na Mata do Bussaco (3). É o jornal O Tribuno Popular que refere a presença de Francisco Loureiro na Exposição Distrital de Coimbra, adquirindo diferentes artefactos para o museu da mata do Bussaco em construção (4).
Em 1890 decorrem grandes obras no Bussaco com o início da construção do Palace Hotel, o que leva o diretor-geral da Agricultura a contratar o fotógrafo José Maria dos Santos para registar "8 chapas photographicas a fim (...) de poder avaliar o adeantamento das obras" (5). José Maria dos Santos terá cumprido a incumbência e aproveitado a ocasião para desenvolver diferentes registos fotográficos pela mata do Bussaco. Serão dessa época uma série de fotografias em que o fotógrafo volta a autoretratar-se por diversas vezes, acompanhado por pequeno grupo de pessoas, sendo uma delas Francisco Loureiro. Alguns anos mais tarde, estas fotografias foram editadas em bilhetes postais do Bussaco, largamente circulados nas duas primeiras décadas do século XX. No conjunto destas fotografias, três personagens, percorrem os vários recantos da mata do Bussaco. Publicámos acima um desses BPI, precisamente o da referida Fonte do Carregal recuperada pelo Francisco Loureiro. Passaram cerca de 15 anos desde as duas fotografias do Panorama Photographico de Portugal, mas nele e nestes outros que revelamos, voltamos a encontrar retratados e sentados, e em várias disposições, o fotógrafo José Maria dos Santos, com a companhia de Francisco Loureiro, e um ou outro dos dois filhos do fotógrafo, futuros sucessores na sua Photographia Conimbricense.
Em 1896 A. M. Simões de Castro, publica a terceira edição do seu Guia Historico do Bussaco. Ilustram essa edição as quatro gravuras anteriormente publicadas, acrescentadas de cinco novas fotografias. Uma delas pura inspiração no BPI Bussaco – Capela de Caiphaz, fotografia de José Maria dos Santos (6). Em Julho de 1898 O Tribuno Popular refere que José Maria dos Santos “tirou uma explendida collecção de vistas photographicas do monumental edifício que anda em construção no Bussaco” (7).
A quarta edição do Guia Historico do Bussaco, de A. M. Simões de Castro é publicado em 1908, ano em que se encontra já concluída a construção do Hotel Palace. O Guia Historico do Bussaco mantém a generalidade das ilustrações (gravuras e fotografias) da edição anterior, mas acrescenta-lhes três novas fotografias onde já se vê o Hotel Palace, agora identificadas com “Photographia Conimbricense, José Maria dos Santos, de Coimbra” (8).
José Maria dos Santos foi um dos fotógrafos que entre o séc. XIX e o séc. XX mais fotografou a mata do Bussaco. Outros também por lá passaram (9) mas poucos terão voltado as vezes que este voltou. Também Francisco Loureiro a fotografou no contexto da sua atividade de silvicultor na mata do Bussaco.
Ourives e construtor de próteses dentárias, José Maria dos Santos interessou-se pela fotografia ainda na década de 60, adquiriu a casa fotográfica Nogueiro & Atkinson em 1869, manteve o anterior operador Thomas Atkinson e abriu actividade comercial em seu nome, com a Photographia Conimbricense no Pátio do Castilho, em Coimbra (10). Continuou com as anteriores atividades durante vários anos, mas acabou optando pela fotografia. Após a sua morte em 1900, a Photographia Conimbricense perdurou por várias décadas, pelas mãos de seus filhos.
Francisco Ferreira de Loureiro nasceu em Coimbra mas veio viver para a Figueira, com os pais, com poucos dias de idade, e foi cá baptizado. Por cá também viveu grande parte da sua vida e aqui veio a falecer em 1904. Na Figueira foi condutor de obras públicas, silvicultor no serviço da Divisão Florestal do Norte, pelo que trabalhou nos anos 70 na florestação da Mata do Urso e no Cabedelo (a sul da Figueira da Foz) e, já nos anos 80, na mata do Bussaco, como vimos. Acabou sendo chefe da Divisão Florestal do Norte, já nos últimos anos de vida. Foi fotógrafo amador toda a vida, associando frequentemente a fotografia às suas atividades profissionais. O mútuo interesse pela Fotografia e pelo Bussaco terá consolidado a amizade entre José Maria dos Santos e Francisco Ferreira de Loureiro, nascida em Coimbra - onde, na década de 60, Francisco Loureiro estudou, cidade onde terão sido ambos iniciados na fotografia.
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Notas:
Agradecemos a Alexandre Ramires a cedência de fotografias da sua colecção, que aqui publicamos.
(1) - Augusto Mendes Simões de Castro, Guia Historico do Bussaco, 1ª edição, Coimbra 1875 - ilustrado com duas gravuras desenhadas por Joaquim de Mariz Junior.
(2) - Gravura da Fonte Fria publicada no Guia Historico do Bussaco, 2ª edição, Coimbra 1883 de A. M. Simões de Castro.
(3) - descrição da Fonte do Carregal no Guia Historico do Bussaco, 2ª edição, Coimbra 1883 de A. M. Simões de Castro.
(4) - O Tribuno Popular de 12 de Janeiro de 1884 sobre a Exposição Distrital de Coimbra.
(5) – As obras para a construção do Hotel Palace do Bussaco terão começado nos últimos anos da década de 80. Em 1890 “encontravam-se prontos os detalhes da galeria térrea, os projetos para as escadas, pormenores das gárgulas exteriores, janelas e guarida, decoração dos arcos, nichos e cornijas, desenhos do "cunhal da somidade" e balaustrada, o embasamento e detalhes construtivos da floreira, os desenhos decorativos da parte superior da torre, entre outros; encontravam-se a trabalhar nas obras do hotel onze empreiteiros; Elvino de Brito, Diretor-geral da Agricultura, mandou tirar "8 chapas photographicas a fim (...) de poder avaliar o adeantamento das obras" - 5 dos modelos e 3 das obras em construção - ao fotógrafo José Maria dos Santos, da "Photographia Conimbricense", tendo sido pago o valor de 27.000 reis”.
in Palace-Hotel do Bussaco Luso – Mealhada, Instalação de Hotel de 5 Estrelas – Caderno de Encargos - Enquadramento Histórico, s/d.
(6) - Fotografia – Capela de Caiphaz no Guia Histórico do Bussaco, 3ª edição, Coimbra 1896 de A. M. Simões de Castro.
(7) – O Tribuno Popular de 30 de Julho de 1898
(8) – Foto Hotel Palace - Guia Historico do Bussaco 1908, 4ª edição, Coimbra 1908 de A. M. Simões de Castro.
(9) - Sabemos que vários fotógrafos do séc. XIX foram atraídos pela Mata do Bussaco, Arséne Hayes segundo o Conimbricense de 18 de Novembro de 1871, Francisco Rocchini em 1874 segundo o Conimbricense de 1 de Agosto do mesmo ano e outro, Cunha de Moraes, registou uma colecção de vistas que a Casa Biel veio a publicar já no início do séc. XX num pequeno álbum Recordação do Bussaco.
(10) – CDV de José Maria dos Santos, Photographia Conimbricense, c. 1880













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Muito bem!
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