Carlos de Avelar na Figueira - 2

O Estúdio figueirense de Carlos de Avelar


  Já ficou aqui tratado o passado açoriano e lisboeta do fotógrafo oitocentista Carlos de Avelar (1). Falta agora aprofundar o seu percurso figueirense (2) que terá iniciado numa visita curta, ou mesmo numa 1ª estadia como fotógrafo sazonal - em 1875, pouco depois de se ter instalado em Lisboa, é quase certo (3)... Nessa vinda deve ter-se enamorado da Figueira, e deve ter acreditado que os progressos económicos rápidos que sentiu estarem a crescer na Vila e urbanisticamente nos novos Bairros do Teatro e de Santa Catarina (o “Bairro Novo”) seriam a garantia da existência duma clientela para um Estúdio permanente. E fez a aposta!


   Em 4 de Maio de 1880 o jornal “Correspondência da Figueira” deixava essa sua intenção expressa, o que veio a confirmar-se (4). A partir daí a nossa pesquisa desenvolveu-se no sentido de determinar os passos que levaram à aquisição do terreno no início do Verão de 1880 e à construção posterior da casa-Estúdio (pedido feito à Câmara M. em 7/2/1881), na Rua da Boa União (hoje Dr. Calado), então em processo de abertura (5). E foi um projecto ambicioso o que foi edificado nessa altura: uma casa de 2 andares, com cerca de 18 metros de frente, dividida em três corpos, com um total de 3 portas e 11 janelas!


CDV - Photographia Avellar - Figueira da Foz - C. 1885 (col. particular)

  

  Não encontrámos até agora qualquer fotografia que nos mostre no quotidiano da rua a fachada dessa casa e, sobretudo, o aspecto que ostentou o Estúdio que lá funcionou de 1883 a 1887, e nem mesmo sequer, mais tardiamente, no século XX, antes da sua demolição e edificação no seu lugar, nos anos 90, do edifício que é hoje o Hotel Wellington (6).


Photographia Avellar - Correspondência da Figueira - 29/7/1886

  Existe apenas uma excepção salvadora, embora limitada no seu alcance visual: a revelação imperfeita, mas quase total, da fachada e telhado do edifício, numa fotografia aérea de José dos Santos Alves, do final dos anos 30, que apresentamos com gosto! Para o encontrar há que situar a fachada poente do Casino Peninsular (no canto inferior direito) e em frente dela ver a casa em que hoje funciona um pronto-a-vestir. Adossada a esta, lá se encontra a Casa-Estúdio, alinhada na direcção do mar.


Figueira da Foz ("Bairro Novo") - José dos Santos Alves - 1939 (col. AFMFF)

  

  Já falámos da importância simbólica deste atelier fotográfico para a Figueira (7). Dele ficaram as normais fotografias de estúdio, ainda que poucas apareçam no presente. Mas, para além delas, Carlos de Avelar soube deixar-nos clichés da Figueira absolutamente relevantes para a sua história urbanística: uns identificados e por ele publicados na sua Photographia Lisboa & Açores ou já na sua Photographia Avellar; outros que sobreviveram sem autoria, mas que lhe podem ser atribuídos (8). Do conjunto deles deixamos, por agora, apenas estes dois exemplos bem significativos, provavelmente de 1881 (anterior ou contemporânea já das obras de construção da Estação do comboio) e 1880 (antes das obras de reforma dos portais da casa do Paço, de 1881).


Figueira da Foz - Marinhas de Sal (Bairro da Estação) - c.1881 (col. AFMFF)
Photographia Avellar - Figueira da Foz

Figueira da Foz - Marinhas de Sal (Bairro da Estação) - verso - c.1881 (col. AFMFF)
Photographia Avellar - Figueira da Foz

Figueira da Foz - Zona Ribeirinha - c.1880 (col. AFMFF)
(Atribuível a Carlos de Avelar)

FM

Notas:

1) Veja-se o post aqui publicado em 23/2/2024.

2) Veja-se o post aqui publicado em 20/3/2024.

3) Num post próximo explicaremos porquê...

4) Veja-se a nota 5 do post aqui publicado em 23/2/2024.

5) Face ao que pode apurar-se nos Livros Camarários, pelo menos por duas vezes o amplo terreno de Carlos Avelar foi alvo de expropriações: para a abertura da rua (em 11/10/1880) e para alinhamentos posteriores da mesma, anos depois.

6) Tentámos perceber a dinâmica da aquisição e demolição da casa junto dos actuais proprietários do Hotel, mas sem êxito, uma vez que o mesmo já não se encontra na posse dos fundadores do mesmo.

7) Veja-se o post aqui publicado em 20/3/2024.

8) São ainda muito nebulosos estes anos de funcionamento do Estúdio, sobre os quais as fontes, locais e lisboetas, são muito omissas. Em 7/9/1880 a Lisboa & Açores fez o pedido à CM para uma tabuleta, mas para a Rua dos Banhos, o que se percebe. Depois, só em 1886 surgirá publicidade na imprensa local, e já então como “Photographia Avellar”.


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