O problema das datações (IV): um outro instantâneo de Carlos Relvas...

 

Figueira da Foz - Doca - 1890 - cliché de Carlos Relvas (col. AFMFF)

   Se tivermos presente a fotografia do post anterior desta série parece que tudo nos convida a considerar que ela será do mesmo dia desta(s) outra(s) que hoje publicitamos. Tomando em consideração o ponto de vista do autor daquela – junto ao “Cais da Chumba” – parece que lhe terá bastado virar a câmara no sentido oposto para surpreender o quotidiano bem activo do Cais com esse nome, não só ao serviço da Doca, mas também das duas barracas do Mercado da época. Deve ter sido esse o raciocínio que Maurício Pinto e Raimundo Esteves terão feito, em 1945, quando a publicitaram no seu livro “Aspectos da Figueira da Foz”, com a atribuição explícita da autoria a Carlos Relvas, e com a datação taxativa correspondente: “1891” (1).

  É um instantâneo extraordinário - um dos mais icónicos da nossa fotografia e um dos mais celebrados! -, não só pela sua singularidade estética e qualidade técnica, mas sobretudo pelo modo dinâmico como prendeu e documentou para a posteridade a activa vida fluvio-comercial, na zona que era então o coração económico da cidade. Em bom rigor, aliás, deveremos dizer que nesse dia ela não nasceu sozinha, e que até é mesmo uma fotografia gémea doutras - de que não conhecemos o número exacto (2) -, que ele ali tirou numa manhã, afinal não de 1891..., mas de 1890! (3)


Figueira da Foz - Doca - 1890 - cliché de Carlos Relvas (col. AFMFF)

   A querela que abrimos quanto à sua datação poderá ser olhada como uma minudência, já que, não se pode colocar sequer a hipótese de poder ter sido tirada na 3ª e última estadia do veraneante Carlos Relvas, a de 1893, uma vez que nessa altura já não existiam naquela zona os barracões do Mercado (ele não veraneou na Figueira no ano de 1892). Mas o trabalho histórico impõe rigores, e saber se estamos em 1890 ou 1891 não é de somenos para o papel que os documentos visuais podem desempenhar na elaboração da História e na datação de outros documentos.


Correio da Figueira – 15/8/1891

   Vamos ao essencial: nesse ano de 1891, Carlos Relvas chegou com a família, como se vê, nos meados do mês de Agosto. Dias antes tinha sido inaugurada, junto às grades da Doca e no enfiamento preciso da Avenida Saraiva de Carvalho um Urinol municipal, com a forma de um chalé.


Correio da Figueira – 12/8/1891

  Ora, se a foto fosse desse ano, era obrigatório que nela ficasse registado, no espaço correspondente, tal estrutura, o que, como se vê na imagem, não aconteceu! Pode-se especular se intencionalmente o fotógrafo terá querido excluir do seu enquadramento tal estrutura, mas feitos os estudos necessários, é de concluir que no espaço correspondente que registou, ela teria de lá estar. Assim sendo, e não existindo já uma 3ª hipótese, a fotografia tem de ser de 1890 e não de 1891! E não haverá, perante este raciocínio de base, necessidade de ir mais longe, à procura, na imagem, de outros elementos identificadores (embora eles lá se encontrem…).


FM

Notas:

1) Edição da Comissão Municipal de Turismo – p43.

2) Referimo-nos às que constam na Colecção do AFMFF, da qual publicamos um exemplar rubricado.

3) Manhã que, com alguma probabilidade, até poderá estar datada pelo jornal Correspondência da Figueira quando o noticia, no sábado 27 de Setembro de 1890, a "copiar algumas lindas paisagens que oferece o Mondego".



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