Em 1889, Eduardo Sequeira (1) proporcionou-nos uma magnífica viagem pelo litoral português com a publicação do seu livro À Beira Mar (2). Já aqui o citámos em anterior publicação.
Quando se inicia mais uma época balnear, será pertinente debruçarmo-nos um pouco sobre este belíssimo livro, profusamente ilustrado, inovador à época na composição e impressão fotomecânica, que aborda a actividade humana à beira mar, as praias, a vida marítima animal e vegetal da costa portuguesa.
O livro inclui a reprodução de 10 fotografias, fototipias segundo clichés da Srª D. Marianna Relvas e dos Snrs. Carlos Relvas, J.M.Rebello Valente, Anthero d’Araujo, Emílio Campos e J.G.Peixoto, imagens de grande qualidade gráfica, impressas na litografia Von J. Löwy, em Viena de Áustria.
As fotografias são apontamentos etnográficos, que fazem referência a algumas das mais conhecidas praias portuguesas. Uma das fotografias, de autoria de Carlos Relvas, refere-se a Buarcos e às falésias do Cabo Mondego. As restantes fotogravuras percorrem os seguintes locais: Carreiros (S. João da Foz); Espinho; Granja; O Concerto das Redes (s/l); Habitações de Pescadores (s/l); Porto de Leixões e o guindaste Titan; Póvoa do Varzim e S. João da Foz; Nazaré e Cascais.
Na descrição das diversas praias de Portugal, Eduardo Sequeira refere-se à Figueira da Foz:
“Figueira situada a cincoenta kilometros de Coimbra, na margem direita da foz do Mondego, é uma cidade lindissima, de grande movimento commercial, com bairros modernos de bons predios alegres e confortaveis.
Tem arrabaldes pittorescos e uma extensa praia, á direita com a encantadora bahia de Buarcos e á esquerda o castello de Santa Catharina. É concorridissima durante o verão, especialmente de gente de Coimbra.
Nasceu na Figueira Manoel Fernandes Thomaz, o grande patriota, a alma da revolução de 1820.”
In Eduardo Sequeira, À Beira Mar, Livraria Cruz Coutinho Editora, Porto 1889, página 65.
Contribuem para a ilustração do livro, além das referidas fototipias, cerca de 200 gravuras desenhadas por A. Xavier Pinheiro, Juillerat, Mutzel, Prête, umas pequenas em páginas impressas em policromia com motivos marinhos em fundo, outras grandes que podem ocupar toda a página. As gravuras abordam a vida marítima animal e vegetal, apresentando espécies zoológicas. Também duas litografias a cores de A. Lydon, representando anémonas, serpulas, crustáceos, moluscos e asterias.
Inclui ainda o livro, um herbário marinho de algas verdadeiras, intercalado em extra-texto, com os espécimens acondicionados em suportes e envelopes apropriados impressos com o seu nome científico, o local e a data da sua recolha.
Sobre o mar, diz-nos Eduardo Sequeira:
“O mar varia sem cessar. As vagas calmas, tão depressa rolam docemente beijando a praia numa molleza flácida como furiosas açoutam as cristas dos mais elevados rochedos, sem que nada as possa deter, nada as possa subjugar. Embala-nos primeiro com as melodias estranhas do seu suave cantar, para nos atordoar depois com os rugidos furiosos das suas cóleras medonhas, das suas cóleras terríveis!
Ao cahir da tarde quando o sol se esconde no extremo horizonte a superficie do mar cobre-se de clarões phantasticos, faiscas azuladas atravessam a agua produzindo uma iluminação especial, tão poderosa ás vezes que chega a dar á praia uma apparencia de dia.
É a phosphorescencia devida a um animalculo microsxopico o niticolo, um rhizopode, o mais simples de todos os infuzorios, e de que são precisos milhões de milhões para darem o peso de um grão.
O mar como diz Lecepéde tem a unidade e a diversidade que dão o bello; a grandeza e a simplicidade que formam o sublime; o poderio e a imensidade que infundem respeito”.
In Eduardo Sequeira, À Beira Mar, Livraria Cruz Coutinho Editora, Porto 1889, página 22.
RF
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Notas:
(1) Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira ou simplesmente Eduardo Sequeira (Porto 1861-1914) foi um naturalista, herpetologista, botânico e jornalista português dos finais do século XIX e início do século.
Autor de uma diversificada obra:
· «As abelhas : tratado de apicultura mobilista» (1895), Lisboa
· «Os Répteis em Portugal» (1886);
· «A Fauna dos Lusíadas» (1887);
· «Guia dos naturalistas» (1887);
· «Ninhos e Ovos» (1888);
· «À Beira-Mar» (1889);
· «Lendas dos Vegetaes» (1892), Typ. de A. R. da Cruz Coutinho, Porto;
· «Os Chrysanthemos» (1898), Bibliotheca horticolo-agricola; Porto;
· «Guia Ilustrado do Porto»;
· «Portugal Artístico» (1905), editado pela Livraria Magalhães & Moniz;
· «Teias de Aranha» (1905);
· «Botânica Recreativa» (1910), Gazeta das Aldeias, Porto.
· «Notavel transplantação de uma palmeira».
· «Esboço biographico de Adolpho Frederico Moller».
(2) Eduardo Sequeira – À Beira Mar, Livraria Cruz Coutinho Editora, Porto 1889
O Operario de 27 de Outubro de 1889, Figueira da Foz









Muito bem!
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