O problema das datações (III) - Um instantâneo de Carlos Relvas?

 

Figueira da Foz - Praça do Peixe e Largo do Carvão - 1891 - cliché atribuído a Carlos Relvas 


   Cada fotografia é em si um mistério, que interessará deslindar ou não. No caso da fotografia histórica fazê-lo será sempre fundamental, independentemente da relevância estética ou artística da imagem em causa.

   A que trazemos hoje é um magnífico exemplo duma das que importa mesmo descodificar, olhando aos seus méritos artísticos e, em especial, à sua relevância para a história figueirense: que saibamos, trata-se de uma das escassas imagens conhecidas a mostrar-nos - num instantâneo que prendeu o quotidiano do local -, um pouco da realidade final do nosso antigo “Mercado do peixe”, que se montava e desmontava, em condições bem precárias, no espaço urbano compreendido entre o Largo Luís de Camões e o Largo do Carvão (para ocidente, portanto, das duas barracas de madeira e telha que entre 1872 e 1892, no 1º destes Largos, constituíram o velho Mercado figueirense).

   Trata-se de uma imagem inédita, da colecção do fotógrafo Jorge Dias (1), que a divulgou, há poucos anos, numa das publicações do seu Estúdio (2). Pelo contexto dessa imagem no confronto com outras da mesma publicação, e dos estudos já efectuados sobre o autor a quem agora a atribuímos, estamos convencidos de que se trata de uma fotografia de Carlos Relvas.

   E é ela mesma que nos empurra para a questão central da sua datação! Desta vez de uma forma quase lúdica! Como se vê, por detrás da mancha do corpo das vendedeiras de peixe seco – um documento em si impressionante! - encontram-se colados os cartazes que publicitaram a vinda à Figueira da “Grande Companhia de Ópera Italiana”, que em 28 de Agosto de 1891 chegou à Figueira para dar um conjunto de récitas no Teatro-Circo. A ópera do caso em destaque – o “Fausto”, de Gounod – subiu à cena em 5 e 8 de Setembro desse ano, numa altura em que Carlos Relvas veraneava e fotografava por cá, pelo segundo ano, nessa década, com a família (4).

   Todos os outros elementos internos da imagem confirmam esta datação (5): a presença, na casa à nossa esquerda, da “Mercearia Lisbonense” (lá desde Outubro de 1889) e do "Hotel Mondego" (desde Janeiro de 1891) mas, sobretudo, o aspecto de obra recentemente realizada que ostenta a casa onde estava há muito instalada a firma “Costa & C.ª”, que em 30/6/1890 requereu à Câmara a aplicação de azulejos na fachada do seu prédio, obra que, como se vê na imagem, já se encontra concluída e, tal como as restantes paredes caiadas, se mostra ainda reluzente...

FM

Notas:

1) A quem agradecemos a autorização para esta nossa divulgação, e a cópia dela que nos ofertou e que usamos.

2) “Figueira da Foz – Século XIX – 50 anos de História”, vol. 3 – “A Cidade e as Gentes”, s/d. 

   Nesta publicação surge uma outra fotografia que é gémea desta, já que terá sido tirada na mesma altura, mas deslocando o plano no sentido do sul. Por isso não a abordamos mas deixamos a referência.

3) Estreada em Paris, em 19 de Março de 1859.

4) Os jornais anunciaram a sua chegada nos meados de Agosto e a sua saída nos finais de Setembro.

5) E excluem a hipótese da imagem ser de Agosto de 1893, altura em que a “Fausto” subiu de novo à cena no mesmo Teatro, trazida então por uma “Companhia Lírica”, chefiada por um maestro espanhol. É uma pena que a imagem não esclareça de forma irrefutável, por falta de nitidez, a nossa datação, mas apesar de Carlos Relvas também ter estado na Figueira nesse Verão, o contexto geral do Largo era já outro...







Comentários

Enviar um comentário