O problema das datações (I) - Francisco Loureiro

Figueira da Foz - Entrada na Doca do Patacho "Gratia" - 23/9/1897 - Cliché de Francisco Loureiro

(col. do AFMFF)

   Uma condição base da investigação histórica – usando uma velha e bem figueirense expressão – é a de procurar “não confundir Traveira pai com Traveira filho”, ou seja, não atribuir a uma época, década ou ano, aquilo que a eles não corresponde (às vezes com base em elementos parecidos mas enganadores...), sob pena de, desse modo, não se estar a fazer História mas sim uma má e obscurantista ficção.

     O domínio da fotografia histórica é quanto a isto particularmente implacável, e nada mais nos resta que não seja tentarmos, caso a caso, aproximar-nos o mais possível, através dum estudo aprofundado, da realidade cronológica que cada imagem contém.

   Mas há momentos – felizes! - em a própria história se encarrega de nos socorrer, facilitando-nos, de forma directa, uma informação que, se passar bem no crivo da credibilidade, acerta em cheio na datação que buscamos.

    Vamos ao exemplo disso que agora trazemos e que retiramos do arquivo X-arqWeb figueirense (1): se pesquisarmos nele por “Francisco Loureiro” ficamos defronte a uma única fotografia - a do “Patacho Gratia” entrando na antiga Doca figueirense. Trata-se de uma bela imagem, como se vê, a que surge associado o ano de “1897-9”, datação que se vê inscrita no verso do original da mesma - pertencente ao AFMFF -, com uma caligrafia que está atribuída ao Dr. Mesquita de Figueiredo (2).

Figueira da Foz - Entrada na Doca do Patacho "Gratia" (v) - 23/9/1897 - Cliché de Francisco Loureiro

(col. do AFMFF)

   Os dados presentes na imagem não desmentem essa legenda, e os dados históricos que fomos procurar nos arquivos da Alfândega figueirense também não (3). E assim, com muita sensibilidade artística, foi-nos oferecido o testemunho imagético do estado dos trabalhos de finalização do “musoir” (o redondo) do molhe sul-poente da Doca - começado 20 anos antes, e abandonado após as obras incompletas de 1892-93 -, reiniciados no Verão de 1896 (4), e que o Gratia se prepara para contornar, para além, claro, dos elementos ligados ao quotidiano marítimo da Doca, e à parte daquela zona ribeirinha da cidade.


FM

Notas:

1)https://arquivo.cm-figfoz.pt:8443/X-arqWeb/

2)Informação prestada pelo Dr. Carlos Baptista, do AFMFF, que agradecemos.

3)Nos livros de “Termos de Entradas de Embarcações” podemos constatar que o Gratia entrou de facto no dia 23 de Setembro de 1897, com uma carga de bacalhau, vinda da “Terra Nova”, para a firma inglesa Rendell & C.ª, coisa que vinha fazendo, em duas visitas anuais, desde 1895, pelo menos, e que prosseguiu nos anos seguintes (levando sempre consigo, na volta para esse destino, cargas de sal).

4)O Edital da arrematação do fornecimento das “madeiras de pinho” que vemos já armadas na forma circular do “musoir”, tem data de 25 de Abril de 1896. Estas obras – activas na imagem - voltaram a ter vários períodos de interrupção, por falta de verbas estatais, e sabemos que no Verão de 1898 ainda não estavam concluídas...


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