A casa onde nasceu “Carlos Sombrio”

 Figueira, Figueiras 13


Figueira da Foz - Casa onde nasceu o escritor "Carlos Sombrio" - Junho de 1995 (col. particular)

   Esta fotografia está a fazer 30 anos. Foi tirada em Junho de 1995. Nela, como se vê, está documentada uma casa singular – a casa onde nasceu em 29/7/1894 o ourives, relojoeiro, jornalista, conferencista e celebrado escritor “Carlos Sombrio”, pseudónimo literário de António Augusto Esteves (1894-1949). 

Carlos Sombrio - Carvão de Otão Luís e dedicatória do escritor - 1926 (col. AFMFF)

  A notícia desse facto retirámo-la há muito do jornal figueirense Mar Alto - da edição de 15/10/1969.



Figueira da Foz - Casa onde nasceu o escritor "Carlos Sombrio" - Abril de 2025 (col. particular)

   Esta outra imagem da casa não tem ainda duas semanas. Como se pode ver, a casa continua a marcar e a definir o cunhal norte-poente da rua da Clemência, na sua confluência com a rua do Hospital, com uma particular sobriedade popular, embora já muito adulterada pela ruína das paredes e de parte do telhado original (e dum outro de chaparia, de recurso, sobreposto), que como se vê quase anularam a personalidade do edifício. Trata-se no nosso entender de uma das construções mais antigas da cidade, uma das poucas setecentistas-oitocentistas que ainda resistem, apesar das muitas décadas de desconsideração e abandono (1).

Figueira da Foz - Casa onde nasceu o escritor "Carlos Sombrio" - Abril de 2025 (col. particular)

Figueira da Foz - Casa onde nasceu o escritor "Carlos Sombrio" - Abril de 2025 (col. particular)

  Quando em 2021 os técnicos da Câmara Municipal elaboraram, na parte relativa ao Património Construído, uma importante relação de “Imóveis e Conjuntos de Imóveis” a considerar e defender, pela sua importância histórica - arquitectónica, artística, cultural, social, simbólica “e de antiguidade ou raridade”-, descritos no Capítulo III – Secção II (Valores Patrimoniais) – Artigos 12-13-14 do Regulamento da 1ª Revisão do PDM do Concelho (2), esta construção não foi considerada, a nosso ver, erradamente (3).

   Trata-se de uma construção valiosa, que nos documenta uma parte importante da realidade de uma época – séculos XVIII-XIX, sobretudo - e das dificuldades de sobrevivência nela de uma parte importante da população figueirense, fosse de pequenos artesãos e proletários, de pescadores ou marítimos, ou ligada ao pequeno comércio e serviços. É um documento vivo, ainda e também, dum modo de conceber e construir muitas das habitações familiares urbanas dessa época – a casa de sótão com forte chaminé, prolongada por um pátio e complementos de apoio, protegidos por um muro alto e robusto –, de carácter modesto, mas compacto e eficaz, que neste caso, as janelas de guilhotina e a porta subida sublinham, num quadro de sobriedade pesada mas "curiosa".

Carlos Sombrio (1º à direita na imagem) e amigos - Beira? - Anos 30? (col. AFMFF)

Carlos Sombrio (2º à esquerda na imagem) e amigos - Anos 40 (col. AFMFF)

   A casa encontra-se à venda há já algum tempo e parece-nos que deveria merecer uma outra atenção dos poderes locais, a tempo de se evitar a sua destruição e vermos desaparecer mais uma construção de tanto valor cultural e simbólico. Será que não poderia surgir ali um núcleo da Biblioteca Municipal (da qual durante algum tempo, aliás, Carlos Sombrio foi Director) que pudesse pôr em destaque a vida e obra do escritor que lá nasceu, e que tão considerado foi, local e regionalmente, durante a primeira metade do século XX (4), e com ele outros escritores figueirenses desse período? E com isso musealizar-se um dos raros e últimos exemplares da nossa arquitectura popular setecentista-oitocentista?


FM

Notas:

1) O Dr. Santos Rocha na sua obra seminal “Materiais para a História da Figueira nos séculos XVII e XVIII”, publicada em 1893, atribuiu a 1790 o alinhamento e demarcação das ruas da Cerca (hoje a do Hospital) e da Clemência, mas refere que no sítio delas – conhecido anteriormente como Vale de Canas – já existiam algumas casas, uma das quais será muito provavelmente aquela que tratamos.

2) DR, 2ªsérie, nº 164, PARTE H – 24 de Agosto de 2021 – ps. 350-352 e 412-431.

3) No entanto, julgamos que esse facto se deve a um erro de localização que não foi detectado na altura da publicação: o nº da porta desta casa é o 55 e na relação da rua da Clemência aparecem 8 imóveis e 4 conjuntos que a não incluem; mas na rua do Hospital é listado o nº 55, dado como sendo de “arquitectura setecentista”, o que é manifestamente um erro olhando o Imóvel a que esse nº corresponde. Cremos que na origem do erro processado estará o facto de o nº 55 da rua da Clemência ter a fachada do seu muro virado para a rua do Hospital - consideração que será preciso esclarecer, para que o erro possa ser corrigido com a urgência que é devida.

4) ”Carlos Sombrio” marcou a vida da cidade muito para além da sua actividade intelectual. Foi também um activo Navalista (nomeado sócio honorário em 1920). Foi membro do Rotary Clube da FF e sócio honorário da biblioteca da ACIFF, que fundou. Foi o criador da tertúlia gastronómica e intelectual “Coração, Cabeça e Estômago” (1936-1948), que congregou vários nomes da cultura nacional (Joaquim de Carvalho, Salinas Calado, João Reis e Raul Xavier, entre outros). Manteve ainda uma activa colaboração com as Colectividades e Ranchos locais.


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