Fomos surpreendidos com a descoberta de um álbum fotográfico pertencente ao espólio do Centro Português de Fotografia, contendo 82 documentos fotográficos em papel (albumina e cianotipia), dos quais, cerca de 23 são albuminas da Figueira da Foz, Buarcos e Cabo Mondego, registadas durante a década de 80 do séc. XIX. Está o álbum identificado com Álbum Pessoal d’um fotógrafo amador da região de Vila Franca de Xira (1).
Logo a primeira fotografia do álbum, Retrato de homem 1880/1880, nos adensa a curiosidade, pois reconhecemos essa mesma fotografia, com um enquadramento ligeiramente diferente, de autoria de Carlos Relvas e publicada no catálogo Carlos Relvas e a Casa da Fotografia ed. MNAA 2003. Estaremos perante um conjunto de fotografias de Carlos Relvas? A primeira fotografia será realmente de Carlos Relvas, e o retratado, o autor das restantes 81 fotografias do álbum, é o médico e fotógrafo amador de Vila Franca de Xira, Clemente José dos Santos (2).
Clemente José dos Santos nasceu em Lisboa em 1847, filho único do Barão Clemente José dos Santos (1818-1892) reconhecido taquígrafo e professor. Médico cirurgião ao longo de 50 anos em Vila Franca de Xira, Clemente dos Santos casou em 1875 com D. Maria Amélia Pinheiro com quem teve sete filhos. Enviuvou relativamente cedo, o que o levou a um novo casamento em 1895 com D. Maria Emília Alfaro Cardoso.
É através das memórias de um dos seus filhos, Reynaldo dos Santos, que conseguimos as melhores referências biográficas sobre Clemente dos Santos. Sabemos da sua enorme dedicação como médico em Vila Franca de Xira, das frequentes férias familiares passadas na Figueira da Foz e da grande amizade que desenvolveu com o fotógrafo Carlos Relvas, alimentada no interesse comum pela tauromaquia e pela fotografia (3).
Clemente dos Santos foi cunhado de Paulo Henry Plantier (4), ourives, gastrónomo e também fotógrafo amador. As fotografias deste distinguiam-se de tudo o que era normal fazer-se na época. As cabeças dos retratados enchiam todo o enquadramento das fotografias, eram montadas em todo o tipo de cartões e expostas entre duas ou três rosas, conjuntamente com as jóias e as peças de ouro, na montra da ourivesaria que possuía na Rua do Ouro em Lisboa. Paulo Plantier fez parte da efémera Academia Portuguesa de Amadores Photographicos e participou na sua única exposição colectiva em Março de 1887, na companhia de Carlos Relvas e outros fotógrafos amadores.
É Arnaldo Fonseca que recorda Paulo Plantier cerca de vinte anos depois, no Boletim Photographico de Abril de 1907, considerando-o “um dos precursores mais audazes e mais originaes da actual maneira photographica” (5). Possivelmente influenciado pelo cunhado, Clemente dos Santos publica no Boletim Photographico de Março de 1900 uma fotografia de uma cabeça enchendo todo o seu enquadramento, com o título “Um socialista” (6).
Voltando ao álbum fotográfico que justificou a presente publicação e às fotografias figueirenses que a ilustram, que estão datadas pelo CPF com alguma incerteza, entre 1880 e 1889. Sabemos das frequentes passagens da família Clemente dos Santos pela Figueira da Foz durante a época balnear, possivelmente ainda na década de 80, mas comprovadamente em vários anos da década de 90. Reynaldo dos Santos refere frequentemente as férias de juventude passadas na Figueira da Foz e como aí se começou a interessar por assuntos artísticos devido ao seu contacto com a actividade do Dr. Santos Rocha chegando mesmo a participar nas campanhas arqueológicas por ele organizadas.
Nesses dias de veraneio, a Figueira da Foz foi lugar de encontro dos dois amigos e ambos se dedicaram a fotografar a cidade e arredores. Comparando fotografias do referido álbum de Clemente dos Santos com outras conhecidas fotografias do Carlos Relvas, conseguimos perceber que estiveram em diversas situações, lado a lado, tomando o mesmo ponto de vista para registarem os mesmos assuntos. Disso são exemplo as fotografias do exercício dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz realizado na Praça Nova a 7 de Setembro de 1890 em homenagem ao benemérito Carlos Relvas (7), mas também as fotografias das Lavadeiras em Buarcos que publicamos. Se nestes dois pares de fotografias percebemos que foram registadas na mesma situação de espaço e tempo, encontramos ainda várias outras fotografias de ambos, com o mesmo ponto de vista embora parecendo terem sido tomadas em momentos diferentes.
Relativamente às fotografias das manobras dos Bombeiros Voluntários, sabemos que Carlos Relvas ofereceu uma série de fototípias do acontecimento hoje pertencentes ao acervo do Arquivo Fotográfico Municipal. Contudo, escolhemos publicar para comparação com a fotografia do Dr. Clemente dos Santos, a fotografia publicada no catálogo Carlos Relvas e a Casa da Fotografia ed. MNAA 2003. Não nos resta qualquer dúvida de que estas duas fotografias foram registas lado a lado num pequeno espaço elevado relativamente ao nível da rua, o balcão de entrada de um antigo edifício da Praça Nova já demolido, mas do qual conhecemos ainda registos fotográficos. Existe mesmo uma das fototipias de Carlos Relvas em que a posição da escada dos Bombeiros e os respectivos homens que a sobem se encontram praticamente na mesma posição que têm na fotografia do amigo, divergindo assim a tomada do registo entre elas, de poucos centímetros e de poucos segundos (8). Se a fotografia do exercício dos Bombeiros não nos levanta qualquer dúvida de que foi registada em Setembro de 1890, relativamente à fotografia das Lavadeiras em Buarcos podemos delimitar o tempo em que o seu registo possa ter acontecido, tendo em conta os anos em que Carlos Relvas esteve na Figueira. Não nos parece provável que tenha sido em 1883/84, tudo aponta também para 1890 ou em 1891 ou ainda possível em 1893, último ano em que Carlos Relvas esteve na Figueira da Foz.
Acresce dizer que Clemente dos Santos foi nomeado Sócio Honorário do Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz em 10 de Dezembro de 1895 (9).
A segunda fotografia do mesmo álbum, O Fotógrafo Minuteiro na Praia de Buarcos 1880/1880, representa um grupo de crianças que segue e envolve um homem já de avançada idade que segura uma pequena mala de material fotográfico. Pelas suas características fisionômicas e idade, o uso de óculos, tudo o indica, será o pai de Clemente dos Santos, o Barão S. Clemente (10), já nos seus últimos anos de vida, início da década de 90.
RF
Notas:
(1) “Álbum Pessoal d’um fotógrafo amador da região de Vila Franca de Xira”,
proveniente da colecção Alcídia e Luís Viegas Belchior, agora integrada na colecção do Centro Português de Fotografia.
http://digitarq.cpf.arquivos.pt/details?id=87322
(2) Clemente José dos Santos com a mulher e filhos
(3) “O meu pai era médico, Clemente dos Santos. Tinha um tal prestígio de médico que a sua vida era absorvida pelos doentes não só de Vila Franca mas duma extensa área onde a sua fama o chamava. (...)
Meu pai era considerado uma das principais autoridades na crítica tauromática. Grande amigo de Carlos Relvas e seu companheiro nas lides fotográficas. Escreviam-se por telegramas longos como cartas e quando vinha passar alguns dias a casa de meu pai, sobretudo nas vésperas de touradas trazia-nos presentes, doces, etc. Carlos Relvas era o tipo de gentleman farmer, grande cavaleiro e homem generoso”.
(...)
Meu pai era um homem extraordinariamente inteligente, um dos mais inteligentes e espirituosos que conheci na minha vida. Sabia de tudo, de agricultura, da cultura das rosas, de cavalos e toiros. Falava e escrevia admiravelmente francês e espanhol e foi na sua biblioteca onde me iniciei.
(...)
Frequentava (Reynaldo dos Santos) então ás tardes a loja de ourivesaria e relojoaria de meu tio Paulo Plantier casado com uma irmã de minha mãe, e em cuja loja se reuniam alguns políticos, homens de letras e sociedade desse tempo (...)
in Prólogo às Memórias, manuscrito por Reynaldo dos Santos e datado de 27 de maio de 1963, Estalagem da Ria, Torreira
Casa Reynaldo dos Santos – Irene Quilhó dos Santos, Câmara Municipal de Cascais
https://arquivodigital.cascais.pt/xarqweb/Result.aspx?id=382922&type=PCD#&gid=1&pid=1
(4) Paulo Plantier (1840-1908)
Auto-retrato c. 1887 (Colecção Particular)
In António Sena, História da Imagem Fotográfica em Portugal 1839-1997, Porto Editora, Porto 1998
(5)
“há precisamente vinte anos – vinte anos! – neste mesmo mez, mez de côr, mez de luz, mez de vida, numa curiosa montra da Rua do Oiro, entre pedrarias e obras finas de joalheiro, seria raro não vêr, todos os dias, três ou quatro esplendidas rosas, na plena magnificencia da gloria e da sua coloração, rosas de vulto opulentíssimo, de sensualíssima epiderme, rosas com um capitoso saber a volupia e a luxuria, sabor a beijos d’olhos fechados...desses onde tudo se vê sem se fitar e tudo se sente sem se apalpar: cinturas d’amphora, a turgidez de bustos adolescentes, o olhar quebrado e arrepiante dum primeiro desejo!
Rosas perigosas...rosas queridas...rosas d’abril...rosas de maio!
E ao pé desse encanto, como retábulo enflorado, sempre uma estranha photographia!
Ora há precisamente vinte anos com a divulgação do processo de gelatina, o fabrico das chapas secas orientára de vez a photographia na via amplíssima da vulgarização.
(...)
Considerava-se boa uma paisagem photographiaca quando tudo se lhe recortava com nitidez suprema, a pedra áspera e enorme do primeiro plano e o gallo do catavento duma ermidinha que distava da pedra alguns kilometros e que no horisonte, á vista desarmada, apenas rutilava como um borrãozito branco.
Podia a disposição ser artística e a luz embevecedora, se lhe faltasse nitidez, a bella prova, era considerada um miserável desastre!
No retrato, a documentação atingia o quer que fosse de minucia chineza, desde o detalhe exigido rigorosamente nos moveis, nos cabelos e nos trajes, até ao deslavado alvar das caras de marfim sem claro escuro de maior.
Era magnifico o retrato onde os cabelos, como arames, se pudessem pacientemente contar!
(...)
Predominava, já se vê, na celebrização de nós todos, o carimbo de borracha. E quando a photographia dum desses dedicados tinha o desaire de parecer feita a pincel em vez de parecer escortinhada a navalha de barba, chamava-se-lhe desdenhosamente flou.
E o flou era o precito.
Eis o ambiente photographico de há vinte anos.
(...)
E vendo bem o que nestas duas décadas passadas se tem feito, de como no precito que era o flou passou a ser o desejado e o querido, de como o habitual photographo que com tão ingenua facilidade podia pesquisar as rugas duma cara e os pellos dum bigode, não pode agora atingir o empaste artístico, vendo bem toda a mudança da factura photographica, ouso avançar que Paulo Plantier foi um dos precursores mais audazes e mais originaes da actual maneira photographica.
Essa mulher que ri (Sarah) tem uma inexcedível expressão. É o riso, é o riso vivo!
Todas as cabeças aqui reproduzidas eram feitas em chapas 18x24 e a cabeça enchia a chapa toda. Visava o photographo a dar bem a mascara do retratado.
O “Carreau cassé” nasceu dum curioso expediente que lembra a Plantier quando encontra o cliché partido e com uma prova dessa chapa que qualquer poria irremediavelmente de parte, elle tira o efeito de três caretas soberbamente gaiatas, feitas detraz duma vidraça partida.
E precursor é ainda Plantier na apresentação que então fazia dos retratos rudemente colados em papeis asperos, papelões pardos, papeis irregulares com grandes margens, fazendo salientar sem o estuque daninho dos cartões então em voga, a sua ousada prova.
O que vinte anos depois passou a ser o definitivo cri!
(...)
Arnaldo Fonseca / Boletim Photographico, Lisboa Abril de 1907
In António Sena, História da Imagem Fotográfica em Portugal 1839-1997, Porto Editora, Porto 1998
(6) Clemente dos Santos, Um Socialista
in Boletim Photographico de Março de 1900
(7) Correio da Figueira de 10 de Setembro de 1890
(8) Carlos Relvas, Manobra de Bombeiros, 1890
(9) in Lídio Lopes, Diário Ilustrado Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Figueira da Foz 1882 a 2022













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