Como dissemos na publicação anterior desta série, a questão da construção de uma Ponte na Figueira não constituía em si um problema, mas dois! É que de nada valeria ter uma ponte construída sobre o braço norte do rio – o da ligação Cidade-Ilha da Morraceira – sem que fosse igualmente construída uma outra ponte, sobre o braço sul do mesmo, que desse a saída da Morraceira para a Gala, Lavos e etc.. Foi por isso que o contrato inicial que foi assinado com a Levallois Perret comportava já a construção de duas pontes metálicas: a da Cidade, com 425 metros (com 17 tramos de 25 metros) e a do Sul com 200 metros (com 20 tramos de 10 metros). Em acréscimo das duas ficavam também consignadas a construção da ligação da Ponte Norte à Avenida Saraiva de Carvalho-Estação, e a dum novo troço da Estrada Real nº 58 (Figueira-Leiria), entre a Gala e a Figueira, atravessando, claro, a Ponte do Sul. E em 11 de Março de 1903 – já com a Ponte do Norte quase pronta – foi até assinado com essa empresa um novo Adicional ao Contrato inicial que deixava tudo ainda mais clarificado, depois da mesma se ter querido retirar, por falta de verbas. A 7 de Junho desse ano fez-se por Portaria a confirmação de que a Ponte seria efectuada com pilares metálicos e pavimento de madeira. Ficou concluída nos finais de 1906, a tempo de poder permitir a abertura, ainda com restrições, da Ponte da Cidade e de todos os acessos que implicava. Em 13 de Março de 1907 iniciaram-se os testes de resistência nas 2 pontes que, por serem conclusivos, permitiram a tão desejada abertura de ambas, sem restrições, estabelecida novamente por Portaria, em 3 de Agosto de 1907.

E a verdade é que aquela Ponte do Sul durou até aos começos de 1936 - cerca de 30 anos, portanto. Em 1931 já eram bem preocupantes os sinais de degradação que apresentava, pelo que foi decidido fazer intervenções de recurso e, poucos anos depois, avançar para a construção de uma nova ponte, agora de betão armado - a "Ponte dos Arcos" - que devido a problemas vários com o empreiteiro inicial (do Porto), só veio a ficar pronta depois da reformulação do projecto inicial e da entrega da sua construção a um empresa belga (2) que cumpriu os prazos e a entregou em 27 de Dezembro de 1942, dia da sua inauguração.
No domingo dessa inauguração - “feita à pressa”, como disse então o jornal O Figueirense (3) - ainda estava de pé a ponte de madeira provisória que tinha ficado pronta em Novembro de 1935 e que tinha sido feita para durar 2 anos (o tempo necessário para se fazer a nova, ao lado e a sul, como aconteceu) e não os 7 que veio a durar.
Essa velha Ponte do Sul, de 1906, não parece ter chamado a atenção dos fotógrafos da época, e só conhecemos dela, na sua integridade, a fotografia aérea que juntamos – de José dos Santos Alves, provavelmente de um dos voos de 1928-29. O mesmo para a ponte provisória de que só conhecemos a fotografia de Manuel dos Santos que publicamos acima e que nos documenta a sua presença ao norte da Nova, em paralelo.
A Ponte dos Arcos, ao contrário, desde logo chamou as atenções, devido ao seu desenho elegante e ao papel que estava pronta a desempenhar na atracção do trânsito que do sul para o norte (Lisboa-Leiria-Aveiro-Porto) podia agora desfrutar de uma via alternativa, mais rápida e directa, de que a cidade passou igualmente a beneficiar. E deixamos dela duas fotografias, de Manuel dos Santos e Afonso Cruz, que julgamos deverem ser de 1943.
FM
Notas:
1) Adolfo Loureiro, Porto da Figueira da Foz, Lisboa, 1905, p. 123-125.
2) Em 24 de Julho de 1940 foi feita a adjudicação da "Ponte Nova" a uma empresa belga, que em meados de Novembro de 1942 já a tinha "quase concluída", apenas faltando os acessos ao tabuleiro.
3) O Figueirense - 1/1/1943



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