A pesca do bacalhau, a fotografia e a Figueira

Louis Jourdain, Fécamp - Départ pour Terre-Neuve, Les Photographes
BPI Le Littoral c.1917 (colecção particular)

    A dureza da vida no mar, nas difíceis condições em que os nossos bacalhoeiros a viveram nos mares frios da Terra Nova, parece estar associada a uma fotogenia que atraiu muitos fotógrafos e marinheiros feitos fotógrafos. São exemplo os três marinheiros, fotógrafos nos mares frios do Norte, comandante António José Martins, Alan Villiers e Eduardo Lopes.

    António José Martins, imediato do navio hospital Gil Eanes na primeira viagem deste barco à Terra Nova em 1929. Volta à Terra Nova e Gronelândia nas campanhas de 1937, 38 e 39 como comandante do Gil Eanes. É dele a impressionista fotografia Escuna “Creoula”, 1927.


Comandante António José Martins, Escuna “Creoula”, bromóleo 1927 (colecção particular)

    Alan Villiers, australiano, marinheiro e repórter de temas marítimos, convidado pelo Estado Novo para acompanhar a escuna Argus à Terra Nova e Gronelândia durante a campanha de 1951. Da viagem resultou o livro “The Quest of the Schooner Argus”. (1)

    Eduardo Lopes participou nas campanhas de 1951 a 1954 à Terra Nova e Gronelândia, primeiro como piloto nos arrastões David Melgueiro e Bissaya Barreto e depois como imediato no lugre Gazela I. É autor de um dos corpos fotográficos mais personalizado sobre a pesca nos bancos da Terra Nova e Gronelândia da qual publicamos duas fotografias, a primeira registada a bordo do arrastão David Melgueiro, a segunda a bordo do Gazela I.



Eduardo Lopes, duas fotografias publicadas no livro Viagem aos Mares Boreais, 
Fotografias de Eduardo Lopes, edição CPF, Porto 2003

    Sabemos que é muito antiga a presença portuguesa nos mares do Norte. Datam do séc. XVI as notícias mais consistentes da presença de barcos portugueses na pesca do bacalhau. Contudo essa presença terá diminuído drasticamente durante o séc. XVII com a ocupação Filipina (2) e só em meados do séc. XIX se lançaram incentivos que permitiram um relançamento da pesca à Terra Nova e Gronelândia, que veio a ter grande desenvolvimento nas primeiras décadas do séc. XX.


Fotógrafo desconhecido, Sahida do Júlia II para a pesca do bacalhau, BPI (colecção particular)

    Foi em 1885 que na Figueira da Foz se reiniciou a pesca à Terra Nova e Gronelândia com a armação de um veleiro, o Júlia I por iniciativa dos irmãos José e António Mariano Goulart (3) e em 1886 a mesma empresa, António Mariano & Irmão, comprou o lugre Júlia II, passando a enviar dois navios para a Terra Nova. Em 1889 foi adquirido mais um, o hiate Júlia III e mais tarde junta-se-lhes o Júlia IV, passando a serem quatro os navios a irem aos mares da Terra Nova.

    Até 1903 só Lisboa e a Figueira da Foz enviavam barcos para a pesca do bacalhau. No ressurgimento da referida pesca, a hegemonia da Figueira da Foz vai afirmar-se até cerca de 1919 superando claramente em número os navios enviados por qualquer outro porto marítimo nacional. (4)


José dos Santos Alves, Descarga de um navio bacalhoeiro, BPI colecção dourada 1926 (colecção particular)

    Em terra, também a referida fotogenia não passou despercebida a alguns dos fotógrafos figueirenses, a partida e chegada dos bacalhoeiros, a descarga e armazenamento do pescado, a seca do bacalhau, a fisionomia dos pescadores marcada pela dureza da faina. Encontramos essas referências em BPIs publicados no início do séc. XX e em outras fontes fotográficas. São exemplo os dois BPIs de José dos Santos Alves que publicamos. O último (já anteriormente aqui publicado) refere-se ao lugre Hércules, depois rebatizado de João José ao ser adquirido por outro armador. Vai “a sair a barra da Figueira da Foz, com escala por Lisboa, onde se vai abastecer, depois fará rumo aos bancos da Terra Nova”. (5)


José dos Santos AlvesNavio sahindo a barra (lugre João José)BPI nº13 colecção branca e preta 1930 
(colecção particular)

    Numa próxima publicação pretendemos abordar um outro fotógrafo figueirense, Joaquim Pereira Monteiro e alguns dos seus olhares sobre o contexto da pesca do bacalhau em terra.

RF

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Notas:

 

(1) – Alan Villiers, The Quest of the Schooner Argus, London 1951

Em 1951, o embaixador português nos Estados Unidos, Pedro Teotónio Pereira, apaixonado pela vela e mais tarde amigo de Villiers, convidou-o a acompanhar uma campanha de pesca do lugre Argus nos tempos áureos da pesca à linha com dóris de um só homem. 

Villiers escreveu o livro The Quest of The Schooner Argus, cuja tradução portuguesa saiu no mesmo ano, e foi muito divulgado no estrangeiro, mercê dos esforços do aparelho de propaganda do Estado Novo.



 









(2) – “Em 1578 os veleiros portugueses nos “bancos” da Terra Nova ainda seriam mais numerosos que os espanhóis, ingleses e franceses. Poucos anos depois, regista-se uma acentuada redução da frota portuguesa. Na expressão de alguns, um sinal de “decadência”, refluxo que a tradição historiográfica tende a associar à “união dinástica”. A acção do corso, em boa medida inglês e nalguns casos até marroquino, o apoio das armadas francesas e inglesa à dissuasão da faina por barcos ibéricos, o assoreamento das barras de Aveiro e Viana e talvez alguma incúria do Estado, cada vez mais interessado no trato das Índias e no Brasil, consolidam a posição de Portugal como país importador”.

In Álvaro Garrido, O Estado Novo e a Campanha do Bacalhau, Circulo de Leitores, Lisboa 2004, pág.35.

 

(3) Manuel Luís Pata, A Figueira da Foz e a Pesca do Bacalhau vol. 1, CEMFF, 1997, pág. 66.

 

(4) Rui Cascão, As Linhas Gerais da Evolução da Pesca do Bacalhau na Figueira da Foz in A Pesca do Bacalhau, História e Memória (coordenação de Álvaro Garrido), Editorial Notícias, Lisboa 2001, pág.88.

 

(5) Manuel Luís Pata, A Figueira da Foz e a Pesca do Bacalhau vol. 1, CEMFF, 1997, pág. 299.

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