Foi curioso, mas durante pouco mais de 4 anos os figueirenses conviveram com a presença simultânea de duas Pontes “prontas”: a “Nova”, pronta para enfrentar o futuro após a inauguração de 12 de Março de 1982 (mas encerrada temporariamente, pouco depois, devido a um problema); e a “Velha”, com cerca de 80 anos, encerrada após a abertura da Nova, pronta para enfrentar o desmantelamento inevitável, mas não sem ainda se prestar a um último período de funcionamento, face ao encerramento temporário daquela (1).
Ficaram assim em presença e em oposição duas obras bem distintas: quanto às concepções tecnológicas e aos processos construtivos; quanto às diferentes concepções de investimentos e futuro; e quanto às diferenças de escala (2), que as fotografias dos BPI que juntamos, bem esclarecem (3).
Quando nos começos de 1985 se começou a desmantelar a sua estrutura metálica, e depois, já em 1987, se concluiu a destruição da quase totalidade dos pegões, concretizava-se na Figueira o desaparecimento físico de uma estrutura que tinha sido desejada por cá durante mais de 40 anos, até poder ser finalmente iniciada, só em 1900, com a recepção dos terrenos públicos e a abertura subsequente do concurso de construção (em Junho), a que apenas concorreu a empresa “Levallois Perret”, da Casa Eifell, que assinou o contrato com o Estado em 1 de Setembro desse ano.
Em 4 de Setembro de 1901 o jornal Gazeta da Figueira falava do bom adiantamento das obras dos pegões, e a 4 Abril de 1903 dava a construção da ponte como quase concluída (4), muito tempo antes, no entanto, da conclusão das obras complementares dessa construção - ainda em curso, ou mesmo por começarem! -, e sem as quais a Ponte não poderia abrir: as ligações entre ela e a Estação-Avenida Saraiva de Carvalho; e as ligações com o sul, que para além da construção duma segunda ponte sobre o braço sul do Mondego, que também estava a cargo da Levallois Perret (entre a ilha da Morraceira e a Gala e que só em Junho desse ano foi iniciada), obrigavam à construção de um troço novo para a Estrada Real nº 58 (Figueira-Leiria), entre a Gala e a Figueira.
Ponte sobre o Mondego - Almanaque da Figueira da Foz para 1907
Fotografias desses anos iniciais de construção a existirem não são do nosso conhecimento. De 1906 parece ser uma colecção de BPI editada por Adelino Alves Pereira (5), onde a Ponte aparece apresentada, cremos que numa das primeiras vezes em BPI. Da possível inauguração em Janeiro de 1907, ano da sua abertura ao trânsito – inauguração que não parece ter acontecido enquanto tal -, também não. Mas nesse ano de 1907 foram publicadas as duas fotografias que trazemos: a da Ponte vista na sua integridade (cremos que se trata do cliché do BPI atrás referido), publicada nos Almanaque da Figueira da Foz, de 1907 e 1909; e a da travessia da mesma feita em Agosto desse ano pelo Infante D. Manuel, vindo de Sintra, numa comitiva a cavalo, que saiu de Leiria pelas 5 horas da manhã e atravessou a Ponte, pelas 10. Dessa vinda que não nos parece ter estado associada a qualquer inauguração, não conhecemos nenhumas outras fotografias para além daquelas que compuseram a notícia que foi publicada pela revista Illustração Portuguesa, com clichés do repórter fotográfico Joshua Benoliel (6).
Já da época do seu desmantelamento não faltarão fotografias!... A altura era outra e muita já a democratização fotográfica. Deixamos três exemplos disso, do autor, em reproduções de alguns dos slides que tirou na altura.
FM
Notas:
1) Jornal O Figueirense – 16/11/1984
2)Seja-me permitido partilhar uma memória de infância, para compreendermos melhor a escala mais humanizada da velha ponte, que permitia acrobacias de todo impossíveis de associar à nova construção: acompanhando-me a mim e ao meu progenitor, a pé, ponte fora, por volta de 1965-66, com o fito da pesca, o “Ti Porto” (Joaquim Lousado: 1911-1984), chegado ao meio, repetia a sua jogada de sempre, que consistia em trepar pelo gradeamento e descer, com canas e saco, pela estrutura metálica exterior até atingir o pavimento de um dos pegões que a suportavam. À hora da “bucha”, e respondendo ao assobio, lá fazia ele a peripécia inversa para vir junto de nós, que estávamos ao longe, num dos paredões das Secas de bacalhau. E regressava ao seu posto a seguir! Muitos outros, ao longo dos anos, assim procederam, de igual modo!!…
3) São clichés do fotógrafo Jorge Dias, que registaram momentos diferentes: no 1º a Ponte Velha ainda em funcionamento; no 2º o inverso.
4) Faltava apenas a betuminação do tabuleiro e a betonagem dos passeios.
5) E com cliché provavelmente da sua autoria…
6) Publicada em 9 de Setembro de 1907.






Como é normal, a distância para unir as duas margens duplicou ou triplicou. Hoje a ponte velha continuaria a ser útil para travessias pedonais, de trotinetes, bicicletas e afins.
ResponderEliminarCompreendo, mas também a veríamos como um estorvo para a expansão portuária nesta margem. O eng.º Adolfo Loureiro compreendeu-o bem logo desde o início ao defender que a sua construção tivesse sido 100 metros mais para nascente...
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