Figueira, Figueiras - Obras emblemáticas…

 Figueira, Figueiras 9


Rua 11 de Setembro – Figueira da Foz - Edição da Pharmacia Peninsular 

 (colecção particular)


   Pode falar-se, para a história urbana da Figueira e das suas representações, de um “antes” e de um “depois” da existência do Jardim e Mercado (1891-92). Isso é particularmente visível nas sucessivas edições de Bilhetes Postais Ilustrados (BPI). Uma vez que a primeira edição figueirense destes – de Costa & C.ª – só surgiu em 1897, já no “depois”, é fácil de perceber que em todos os BPI que memorizaram em imagens esta zona central da cidade, eles lá se encontrarão. Assim não será quanto a imagens mais antigas (não em BPI), claro, onde, postos perante a sua ausência, o “antes” mandará. 

   E não é de somenos! É que eles foram parte determinante, e emblemática, da resolução de um problema estrutural: o da ligação da “cidade velha”, marítima e comercial, à recém “cidade nova”, turística e residencial, que crescia a olhos vistos, à procura do mar. Ao ocuparem o espaço da antiga Praia e Doca da Fonte, e o confinante a poente, contribuíram para a caracterização e valorização do novo troço urbano Doca-Bairro de Santa Catarina, parte do eixo mais amplo de ligação Estação-Mar-Praia que vinha sendo concretizado para superar as limitações do antigo viaduto, nascido das obras da Barra (com a direcção do Eng.º Silva), por onde o “Americano”, desde Dezembro de 1875, se via obrigado a passar para chegar à Doca.

   Um pouco disso nos evoca a foto do BPI da Rua 11 de Setembro (hoje 5 de Outubro), que trazemos: o fim da estruturação e alargamento para sul da zona contígua ao Jardim-Passeio Público (o Passeio Infante D. Henrique), feita com a construção de uma segunda couraça, cuja conclusão apenas ocorreu em 1907. Da época do seu arranque é o singular edifício da esquerda, ainda existente, onde, na sua zona baixa e comercial, funcionaram serviços e comércios de larga relevância desde 1893. Anexo a ele, a nascente e dos mesmos proprietários, mas da década de sessenta, vê-se o edifício que foi um dos armazéns deles (de Águas & Filho) - onde existe hoje a Sapataria Quaresma -, com obras de transformação feitas em 1873. Logo depois impõe-se a fachada meridional do mais importante e simbólico edifício civil da cidade: a Casa do Paço, onde entre 1903 e 1906 funcionou, como se pode ler na placa colocada na fachada, o “Colégio Lyceu Figueirense”, fundado e dirigido pelo Dr. José Mendes Pinheiro.

   Com dotações estatais baixas, e com interrupções diversas, as obras de alargamento e consolidação da couraça foram-se eternizando, e também desse desalinho e abandono nos fala a imagem (1). Mas também já sugere o futuro quando destaca, à direita, o velho casarão setecentista, onde tinha funcionado o Hotel Reis, e estava desde 1896 o Hotel Universal. Com estas obras concretizadas, logo ficou claro para a cidade o destino que lhe deveria ser dado, tal como a um outro edifício escondido a nascente deste: a demolição! - que apesar de ser considerada fundamental para a valorização de toda a zona ribeirinha e da Casa do Paço, só se veio a concretizar, no entanto, em 1921...


Porto e Doca – Figueira da Foz - Edição de Adelino Alves Pereira

(Colecção particular)

   Juntamos um segundo BPI: depois de dois anos como professor de Francês no Colégio Liceu Figueirense (2) que imagem melhor poderia escolher B. Jackowski de Kersivet para, no 1º de Janeiro de 1908, apresentar a parte mais significativa da cidade aos seus padrinhos? Esta que partilhamos (3), com o musoir (o redondo do fecho) do braço sul-oeste da Doca também finalmente concluído, e o Mercado (e o Jardim escondido), por detrás dos casarões, bem lá ao fundo, claro!

FM

Notas:

1) “(…) até ao fim do ano deve ficar concluído este paredão do Passeio Infante D. Henrique. Vai sendo tempo de se pensar em fazer demolir os dois casarões que embaraçam a comunicação da cidade velha com o bairro novo.” - jornal Voz da Justiça, 4/6/1903

2)”A escola nova que Joaquim de Carvalho frequentou: o Collegio Lyceu Figueirense (1902-11)”, in: Litorais-Revista de Estudos Figueirenses, Nº9, 2008. É provável que tenha iniciado a sua actividade de  leccionação ainda com o Colégio na Casa do Paço - o que justificaria a escolha do BPI -, imediatamente antes da deslocação posterior do mesmo para a Rua do Pinhal, já na 2ª metade de 1906, para as instalações que resultaram da adaptação e ampliação da antiga casa do Dr. José Maria de Lemos, onde mais tarde vieram a funcionar o Hospital Militar e a “Casa da Mãe”.

3)”Permitam-me que vos envie estes votos do vosso afilhado depois dos meus 2 anos aqui. Se este postal chegar e vos interessar poderei contar-vos a minha odisseia. Saudades para todos e afectuosos cumprimentos de B J de Kersivet” (tradução do autor)

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Este texto foi publicado originalmente no jornal "A Voz da Figueira", de 9 e 30/10/2019. Republica-se agora, com algumas alterações e acrescentamentos.

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