Autor desconhecido, BPI Junto á estação do Caminho de Ferro,
edição Casa Havaneza, 1904 (colecção particular)
A noção de fotografia instantânea evoluiu ao longo do tempo, com o progresso dos processos técnicos. De uma forma geral ela opõe-se à fotografia encenada que é construída. Já na década de 40 do séc. XIX se falava de “visão instantânea”, termo que designa uma fotografia que captura uma fração de tempo de um sujeito em ação. Aqui, o instantâneo fotográfico é definido em relação ao tempo de exposição e à sua redução: isso permite capturar pessoas em movimento. Mas foi preciso esperar pela chegada do processo negativo sobre o vidro de colódio (década de 50) para que a noção do instantâneo entrasse verdadeiramente no campo da fotografia: foi a era das cenas de rua, das coisas em movimento, como a água e as primeiras reportagens no local. Essas imagens, por não terem sido construídas (os personagens fotografados não posam), foram consideradas, na época, como verdadeiras “impressões instantâneas”. (1)
Com emulsões fotográficas mais rápidas à base de brometo de gelatina (década de 70), o instantâneo deve ser tal que um objecto em movimento apareça claramente na impressão, congelado; sendo esta nitidez condicionada pelo tempo de abertura da lente (obturador). Finalmente, com a primeira Kodak comercializada em 1888, a fotografia instantânea estava ao alcance de todos e abriu um novo registo ao representar sujeitos em novas posturas. O instantâneo do fim do século centra-se no reino do inédito e do humorístico. (2)
O BPI, edição da Casa Havaneza, circulado em 1904, representa uma situação espontânea junto á estação do Caminho de Ferro da Figueira: várias crianças interagem entre si enquanto um adulto foca o seu olhar, possivelmente procurando alguém que chega ou que parte em viagem.
Impresso em fototipia, parece ser um precoce exemplo de libertação da fotografia das condicionantes técnicas que limitavam o registo instantâneo, para a concentrar na procura de situações em que os vários elementos da imagem, em movimento, se conjugam e organizam no instante escolhido.
RF
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Notas:
1 – AAVV, Dictionnaire Mondial de la Photographie des Origines à nos Jours, Larousse, Paris, 1994
2 – Mais tarde, a década de 20 do séc. XX marcou uma rutura no conceito de instantaneidade ao desenvolver uma nova definição. O instantâneo fotográfico não é mais a captura de um sujeito em movimento, mas uma imagem produzida num instante que estabelece uma nova relação entre operador/sujeito alvo. Já não é o instantâneo ao nível da velocidade e do espaço, mas do ponto de vista do enquadramento, da captura no tempo. Não se trata mais de quebrar o momento, mas de captar a “vida” na sua forma permanente que é a continuidade. Com o aparecimento de câmaras pequenas e muito práticas (Ermanox, Rolleiflex, Leica), o instantâneo torna-se sinónimo de tempo suspenso, de actualidade, e a imagem fotográfica define-se como vestígio do momento fugaz. O fotógrafo quer ser testemunha do seu tempo e procura “o momento decisivo”.
in AAVV, Dictionnaire Mondial de la Photographie des Origines à nos Jours, Larousse, Paris, 1994


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