Rumo ao Mar...

 FIGUEIRA, FIGUEIRAS - 6


Novo Mercado e Jardim da Figueira da Foz - Souvenir da Figueira da Foz - s/d (col. particular)

    Referimo-nos no post anterior desta rubrica ao desaparecimento do velho Mercado da Ribeira-Praça do Comércio, começado a desmantelar, no que tinha de fixo (as duas “barracas” existentes a sul, concluídas nos começos de 1872), alguns dias após a inauguração do novo Mercado - no dia de S. João, às sete da manhã!, de 1892 -, de que ainda hoje beneficiamos, e que reconhecemos no seu esplendor inicial na imagem que apresentamos (1). Estamos novamente perante uma gravura de base fotográfica, sem autoria, mas com uma qualidade iconográfica fundamental para a cidade, uma vez que pouco parece existir no Arquivo Fotográfico Municipal que, cronológica e documentalmente, possa ser com ela comparada (2).

    

    Podemos reparar que estamos em presença de um enquadramento muito bem estudado, feito para relevar, em simultâneo, duas obras centrais para a cidade, inauguradas em sequência: em 1891 o Jardim-Passeio Público, e em 1892 o Mercado Municipal. Elas foram fundamentais para consolidar a expansão da cidade na direcção do novo Bairro de Santa Catarina e do que ele concretizava, desde 1869, sobretudo: uma nova e esperançosa relação com a foz do rio e o mar, ao longo do eixo criado pela Rua Engenheiro Silva, então aberta, e pelos terrenos marginais da orla marítima que iam ficando aptos a ligar a zona do Mercado à zona dos Palheiros, e a Buarcos.


    Quanto ao Mercado, todos conhecemos bem a opção que foi feita: a da construção em ferro fundido, assumindo a experiência estética e funcional já experimentada noutros edifícios e nalguns importantes mercados do Reino, casos do da Praça da Figueira, em Lisboa (de 1885) e do Ferreira Borges, no Porto (de 1888). A fachada de dois pisos, elegante e escorrida, foi concebida para se relacionar de forma harmoniosa com a zona do rio, ali mesmo ao lado, mas também com o novo e desejado espaço, indispensável aos novos padrões da convivialidade citadina e burguesa da época, que era o Jardim-Passeio Público, de que falamos, construído em cima do aterro do que tinha sido, até poucos anos antes, a “Doca da Fonte”. Daí o quase encantamento que a imagem traduz e sublinha, apesar das suas limitações gráficas...


    Nesta, para além dos pormenores diversos do vestuário, do uso das femininas sombrinhas, ou do modo de conceber e concretizar certo tipo de lazer, como o de passear em lugares de racionalidade e asseio, repare-se, quase em primeiro plano, noutra peça evocativa da imagética da construção metálica, mas também doutras preocupações da época: um esbelto  (e quase libidinoso...) mictório, público, masculino! Mais um exemplo de como se respondia nos locais mais frequentados, às mesmas preocupações higienistas que impuseram, afinal, a construção noutros moldes dum novo Mercado.


    Uma nota final para o ponto da tomada de vistas: o telhado do novo edifício de lojas, ainda hoje existente, e que se começou a construir no início de 1893, ano provável desta imagem (3).

FM

 

Notas:

1) Trata-se de mais uma gravura litografada, extraída da publicação Souvenir da Figueira da Foz, publicada em Lisboa por Leopoldo Wagner, sem data, mas que terá sido editada em 1896, segundo a notícia sobre ela publicada no jornal Povo da Figueira, em 4 de Outubro desse ano. 


2) São conhecidas algumas imagens fotográficas tomadas do mesmo ponto de vista, mas ou são claramente posteriores ou possuem enquadramentos espaciais mais limitados.


3) Fazemos esta atribuição com reservas, apenas apoiados na análise da evolução da cobertura vegetal do Jardim, que recebeu as primeiras plantações nos finais de Julho de 1891. O jornal Correspondência da Figueira de 16/9/1891 noticia a sua inauguração a 13 desse mês, comentando com ironia que de Jardim só possuía o nome, já que só lá existiam "meia dúzia de bancos"! Não excluímos, por isso, que a fotografia que serviu de base à gravura possa ter sido tirada em 1894, mas não mais, uma vez que em 1896 (12 de Julho) o jornal Povo da Figueira dá conta da existência duma degradação da vegetação, equipamentos e arruamentos existentes que não é passível de ser coadunada com o que observamos na imagem. 

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Este texto foi publicado originalmente no jornal "A Voz da Figueira", de 18/09/2019. Republica-se agora com algumas alterações e acrescentamentos.

   



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