A Figueira vista do céu - José dos Santos Alves

 José dos Santos Alves e o G.E.A.R. - I


Figueira da Foz - José dos Santos Alves - 1929 (col. AFMFF)


    Está por valorizar devidamente, na cidade, a actividade pioneira de José dos Santos Alves no domínio da fotografia aérea. Ao longo dos anos os destaques maiores foram sendo dados às imagens posteriores de Afonso Cruz ou de Jorge Dias, o que contribuiu para ir empurrando para zonas de sombra as fotografias que Santos Alves começou por registar nos finais dos anos 20 do século XX (1).

    Trazemos hoje a que julgamos ser a mais relevante, não só pelo seu valor fotográfico, mas também pelo seu valor histórico e simbólico, já que aparece associada, como se vê abaixo, ao grupo “G.E.A.R.“, o Grupo de Esquadrilhas de Aviação República, também ele pioneiro no domínio da aviação militar em Portugal. Foi a 1ª unidade operacional da Aeronáutica Militar, criada em 1919, na Amadora, e composta por Esquadrilhas de observação, de combate e bombardeamento. Até 1938, ano da sua transferência para Tancos, foi lá que se verificaram as principais partidas e regressos das muitas viagens aéreas de contacto com as nossas ex-colónias de África e Ásia, das quais há que destacar as que envolveram o “figueirense” Humberto da Cruz (com brevet de 1927), com destaque para as de 1930 (a viagem Lisboa-Guiné-Angola), e de 1934 (a viagem Lisboa-Dili, com o regresso por Macau e Goa).

    Não conhecemos as condições concretas da colaboração que terá havido entre o autor da foto e os aviadores, mas sabemos que depois de iniciada a 1ª Guerra Mundial, e com o desenvolvimento rápido da aviação, a Figueira foi regularmente sobrevoada ou mesmo visitada por algumas aeronaves militares, (2) algumas com a presença pontual de pilotos figueirenses.


Figueira da Foz - José dos Santos Alves - 1929 (col. AFMFF)

    Provavelmente, nalgumas dessas visitas à pista improvisada do aeródromo da Morraceira, terão sido dadas a José dos Santos Alves as oportunidades de voar no lugar do mecânico em alguns dos aviões do GEAR, e de poder efectuar, por isso - ao que julgamos, desde 1928 -, as primeiras fotografias aéreas da Figueira, situação que pôde repetir depois noutros momentos - datados e não datados - de 1929 e dos inícios dos anos 30.




    E ficamos perante esta que é uma das imagens aéreas da Figueira do lote desses voos iniciais, vista em toda a sua amplitude urbana, embora com limitações de registo óbvias, fotografia que o autor divulgou e parece ter dedicado ao GEAR, com uma data que a torna ainda mais significativa: o dia de S. João de 1929!


FM

Notas:

1) Terá também ajudado a esta secundarização a falta de uma maior divulgação das mesmas durante a vida e após a morte do seu autor, tendo permanecido, ao que sabemos, na maioria, inéditas e inacessíveis, até 2007, data da doação do espólio da Casa Havanesa aos Arquivos da cidade.

2) Algumas das quais, como em 1918, por exemplo, e por mais que uma vez, da classe dos hidro-aviões, no caso franceses, vindos da base de Aveiro.



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