Sobre um fotógrafo de nome "Ulisses" que acabava de se instalar na cidade, o Correspondecia da Figueira publica em 10 de Setembro de 1885 o seguinte artigo:
“Aumentam os atractivos na Figueira da Foz; mais uma novidade, que o é igualmente no Paiz: retratos photographicos de tamanho natural directos sobre “Gelatino Bromure”. O inovador entre nós é o Sr. Ulisses, habilíssimo operador, que foi, da Photographia União do Porto, uma das primeiras, senão a primeira do País.
Os notáveis trabalhos desta casa, são bem conhecidos e apreciados pelo seu cunho especial, sobretudo na suavidade da luz e na doçura dos tons; haja vista a dois deliciosos specimens que estão no circo desta cidade, que representam ou, diremos melhor, que reproduzem a senhorita Negri.
Aquilo não são duas fotografias, são a própria Negri. Ainda não vimos melhor entre o melhor do estrangeiro. O Sr. Ulisses que tem a mesma escola deve portanto fazer aqui primores.
Cremos que escolheu bem preferindo a Figueira, e que não podia instalar o seu atelier em melhor sitio do que aquele que descobriu – a Praça Nova.
O local é digno dum estabelecimento destes de primeira ordem como a Figueira é digna do Sr. Ulisses, como o Sr. Ulisses é digno da Figueira.
Se o bom gosto não é frioleira banal, fictícia; se a noção de arte, do belo, e enfim o critério photográphico existem aqui, cremos piamente que os merecimentos artísticos e os esforços do Sr. Ulisses, hão de ser devidamente compensados, e que o atelier photographico da Praça Nova vai ser muito visitado pelo nosso higlife.
Até nós que só nos retrataram uma vez na vida, quando ainda usávamos caleinhas de renda, vamos emfim photographar-nos, para nos oferecer à posteridade, não diremos em estatua como os immortaes, mas em cartão como os humildes.
Na verdade o processo ainda hoje usado nas melhores photographias do país, de se fazer um positivo com o auxilio da camada solar phantasmagorica, em que o retoque tinha por fim de salvar a falta de nitidez inevitável da ampliação, deixava muito a desejar: a aptidão ou phantasia do positivista nem sempre respeitava a fidelidade do modelo. Agora sim que arte se alia á fidelidade. Lá iremos, mesmo porque segundo nos dizem, o Sr. Ulisses faz retratos em todos os tamanhos desde miniatura. Como não somos bonitos nem muito feios… antes pelo contrário…queremos ver como somos.
À Praça Nova Pois.”
Durante algum tempo interrogámo-nos sobre quem seria este “Sr. Ulisses”, intrigava-nos o tamanho dado à notícia, seria alguém conhecido, de presença habitual no verão Figueirense? O ênfase à novidade e pioneirismo dos processos técnicos usados. Mas pouco mais conhecíamos sobre o hábil fotógrafo, até chegarmos a uma outra notícia, num jornal de Évora do mesmo ano, O Manuelinho d’Evora, de 5 de Maio de 1885 (1):
“O sr. Ulisses d’Oliveira, dono de um atelier photographico estabelecido na Rua d’Ancha d’esta cidade, recebeu ultimamente uma machina para tirar retratos de grandes dimensões, sendo os retratos em busto quasi de tamanho natural. Esta machina é uma das de maior objectiva que tem vindo para o nosso paiz.
Á porta do mesmo atelier podem ser examinadas nitidas provas d’este melhoramento photographico.
As pessoas que quizerem utilizar-se dos trabalhos do sr. Ulysses d’Oliveira, devem faze-lo até ao meado deste mez, porque o referido photographo tenciona retirar-se brevemente para Lisboa.”
Foi precisamente a referência em ambas a notícias e no mesmo ano de 1885, a uma câmara fotográfica de grandes dimensões que permite fazer retratos fotográficos do tamanho natural produzindo por isso uma enorme nitidez, que nos fez relacionar o “Sr. Ulisses” da Figueira com o Ulisses d’Oliveira de Évora ou mais provavelmente Ulisses Viejo Bueno d’Oliveira, fotógrafo ambulante espanhol do qual temos notícias de atividade desde o início dos anos 60.
Refere a notícia da Figueira, ter sido o Sr. Ulisses operador da Photographia União do Porto e sabemos também que a referida casa fotográfica “utilizava operadores fotográficos de nacionalidade espanhola, o que resultava na preferência que a colónia espanhola lhe dispensava.” (2).
Encontramos a primeira referência à atividade fotográfica de Ulisses Viejo Bueno d’Oliveira, no Funchal, ilha da Madeira, no jornal “A Voz do Povo” de 24 de Agosto de 1862 (3), seguidamente registamos a sua presença na Gran Canária em 1864 (4) e depois em Évora segundo o jornal Perseverança de Novembro de 1867: “chegou novamente o já bem conhecido photographo, o sr. Ulisses de Oliveira...” (5).
Já a notícia de 1867 se refere à intenção do fotógrafo se fixar na cidade de Évora. Possivelmente cansado da vida itinerante de fotógrafo, Ulisses d’Oliveira faz de Évora a sua base, para não dizer residência e, na década de 80, é de lá que parte e a onde regressa de frequentes viagens de trabalho. É isso que nos sugerem as regulares referências ao seu atelier, às partidas e chegadas que encontramos na imprensa local entre 1882 e 1886 (6). Como já referido, o fotógrafo foi operador da Photographia União do Porto, certamente antes de 1885 e muito provavelmente antes de 1882 e do período em que o encontramos mais activo em Évora.
Ulisses d’Oliveira esteve na Figueira da Foz no Verão de 1885, não sabemos se pela primeira vez, se pela última vez. Pelo que sabemos de outros seus colegas, estas visitas sazonais aproveitando a época alta acabavam por se repetir por vários anos. Apesar de residir em Évora, Ulisses d’Oliveira necessitava de diversificar a sua clientela, recorrendo a frequentes viagens fotográficas pelo que seria perfeitamente natural sentir o apelo pelo litoral durante a época balnear e a Figueira da Foz seria um destino óbvio. Está cá nesse Verão, no início de Setembro e poucos meses depois da sua chegada, anuncia o seu regresso a Évora, no O Manuelinho d’Évora de 17 de Novembro de 1885:
“O bem conhecido photographo Ulisses d’Oliveira, tendo regressado a esta cidade tira retratos pelos systemas mais modernos e aperfeiçoados, mesmo em tempo chuvoso. Os seus retratos saem com a perfeição e nitidez já conhecidos pelo illustrado publico d’esta cidade. 66 – Rua Ancha –66 EVORA”.
A última referencia ao seu trabalho em Évora data de Janeiro de 1886, sempre na mesma morada - Rua Ancha, 66 – mas temos conhecimento de que outro fotografo aí se vai instalar em Março de 1887. Parece assim que Ulisses d’Oliveira deixou definitivamente Évora, poderá ter falecido ou terá continuado viagem, provavelmente passando por Braga, pois conhecemos alguns CDV com carimbo dessa cidade, idênticos aos de Évora e que pelas suas características formais nos levam a pensar nos anos 80 tardios, não antes.
RF
____________________________
Notas:
(1)
As diversas notícias da imprensa de Évora referidas nesta publicação foram recolhidas nos anexos da tese de doutoramento de Cármen Dolores Avó Baião Ferreira de Almeida, A Divulgação da Fotografia no Portugal Oitocentista, Protagonistas, Práticas e Redes de Circulação do Saber, Évora 2017.
(2)
Referência no livro
Tereza Siza, Mª do Carmo Serén, O Porto e os seus Fotógrafos, Porto Editora 2001 - Pág.56
(3)
“A Voz do Povo” de 24 de Agosto de 1862 e repetido em 4 de Setembro de 1862, Funchal, Ilha da Madeira
“Ulisses Viejobueno d’Oliveira tira retratos a photographia, na rua do Conselheiro, dentro do quintal do sr. Manoel José Candido, desde as 9 horas da manhan até as 3 da tarde, pelo preço mais modico possível.”
(4)
Referência a Ulisses Viejo Bueno d’Oliveira, Gran Canária 1864 no Livro
Carlos Teixidor Cadenas, La Fotografía em Canarias y Madeira, La época del daguerrotipo, el colodión y la albumina - 1839-1900, CCPC 1999 – pág. 132
(5)
Notícia de Évora em 1867
- Perseverança, 1.º Anno, n.º 2, 17 de Novembro de 1867.
“Photographo – Chegou novamente o já bem conhecido photographo, o sr. Ulisses de Oliveira; continua a tirar retratos todos os dias no extincto convento de S. Francisco, onde se acha provisoriamente enquanto não arranjar casa competente para estabelecer o seu atelier. Consta-nos que o Sr. Ulisses de Oliveira, tenciona fixar residencia n’esta cidade, com o que muito folgamos.”
(6)
Notícias de Évora entre 1882 e 1886
- Sul, 2.º Anno, n.º 108, 2 de Fevereiro de 1882.
“Promptidão, Barateza e Nitidez ULTIMA NOVIDADE FERROTYPIA
36 retratos em 5 minutos, 9 por 200 réis
Esta innovação da arte photographica, que veio pôr o retrato ao alcance dos mais desprotegidos da fortuna, está atrahindo a attenção [...] onde acaba de estabelecer-se que o retrato bijou em lamina metalica se tira aos milhares diariamente.
[...] o photographo Oliveira tira retratos do systema acima indicado. Rua Ancha, 64, 2.º”
- O Manuelinho d’Evora, Anno III, n.º117, 17 de Abril de 1882
“Ulysses d’Oliveira, photographo, tira retratos pelo systema mais moderno, desde as 10 horas da manhã ás 3 da tarde, pelos seguintes preços:
12 retratos em cartão de visita, em brilho e relevo...3$000 6 ditos, idem ...2$000
12 ditos, photographia ordinaria... 1$500
6 ditos, idem... 1$000
12 ditos, carta-album. 7$000
6 ditos, idem.. 4$000
12 ditos, promenade. 9$000
6 ditos, idem 5$00
Atelier na Ruancha, n.º 64 – Évora.”
- Sul, 3.º Anno, n.º 307, 30 de Dezembro de 1883
Ulisses d'Oliveira 64 - Rua Ancha - 64
“Tira retratos por todos os methodos conhecidos, e mais modernos e aperfeiçoados, desde o bilhete de visita até á ampliação, todos os dias, desde as 9 horas da manhã até ás 4 da tarde, qualquer que seja o estado do tempo, porquanto devido á boa disposição da galeria os retratos ficarão com egual perfeição e nitidez, ainda mesmo em tempo escuro e chuvoso.”
- O Manuelinho d’Evora, Anno IIV, n.º154, 1 de Janeiro de 1884
“ULISSES DE OLIVEIRA PHOTOGRAPHO
64-Rua Ancha-64
Tira retratos por todos os methodos conhecidos, e mais modernos e aperfeiçoados, desde o bilhete de visitaaté á ampliação, todos os dias desde as 9 horas da manhã até ás 4 da tarde, qualquer que seja o estado do tempo, por quanto devido á boa disposição da galeria os retratos ficarão com egual perfeição e nitidez, ainda mesmo em tempo escuro e chuvoso.”
O Manuelinho d’Evora, de 5 de Maio de 1885 (2):
“O sr. Ulisses d’Oliveira, dono de um atelier photographico estabelecido na Rua d’Ancha d’esta cidade, recebeu ultimamente uma machina para tirar retratos de grandes dimensões, sendo os retratos em busto quasi de tamanho natural. Esta machina é uma das de maior objectiva que tem vindo para o nosso paiz.
Á porta do mesmo atelier podem ser examinadas nitidas provas d’este melhoramento photographico.
As pessoas que quizerem utilizar-se dos trabalhos do sr. Ulysses d’Oliveira, devem faze-lo até ao meado deste mez, porque o referido photographo tenciona retirar-se brevemente para Lisboa.”
- O Manuelinho d’Évora, Anno V, n.º 234, 14 de Julho de 1885
“RETRATOS PARA SALA
Medindo 0,54m x 0,65m
Do mesmo tamanho de quaesquer retratos a crayon, excedendo estes em fidelidade e nitidez, sendo alem d’isso completamente inalteraveis.
PREÇOS - Primeiro retrato, réis...6$650 Prova repetida, réis,...2$000
ULISSES D’OLIVEIRA
Ru’Ancha, 66 – Evora”
- O Manuelinho d’Évora, Anno V, 17 de Novembro de 1885.
“O bem conhecido photographo Ulisses d’Oliveira, tendo regressado a esta cidade tira retratos pelos systemas mais modernos e aperfeiçoados, mesmo em tempo chuvoso. Os seus retratos saem com
a perfeição e nitidez já conhecidos pelo illustrado publico d’esta cidade.
66 – Rua Ancha –66 EVORA
Obs. Repete o mesmo anúncio no dia 24 e n.os seguintes.”
- O Manuelinho d’Evora, Anno VI, n.º 259, 5 de Janeiro de 1886
“O Physico
O Sr. Ulisses d’Oliveira veio hontem ao nosso escritorio mostrar-nos o retrato do cavalheiro da industria por antonomasia. O Physico, retrato mandado tirar pelo sr. Commissario da polícia civil d’este districto.”



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