FIGUEIRA, FIGUEIRAS 5
Referimo-nos anteriormente às dificuldades de reprodução fotográfica vividas pelas publicações da 2ª metade do século XIX, exemplificando com um dos expedientes encontrados para as ultrapassar. Hoje vamos olhar para um outro, já referido também em posts anteriores: a utilização da gravação (xilográfica ou outra, e já com vários séculos de experimentação técnica) para a reprodução, o mais fiel possível, do cliché fotográfico. E voltamo-nos, para isso, para a zona do velho Mercado da Praça da Ribeira, depois denominada Praça do Comércio (vulgo Praça Velha).
Retomamos esse contacto com uma imagem elucidativa (1), não do frenesim humano e comercial do mesmo – é-nos dada uma Praça quase deserta e com o Mercado encerrado -, mas sim da sua dimensão espacial, a que a legenda original da mesma, como se percebe, não faz jus na totalidade: sabemos (2) que a “Praça do Peixe” se desenvolvia, sobre plainos improvisados e canastras, desde a barraca com alvenaria que se vê no lado ocidental da Praça, já próxima da couraça da Doca, até para lá do Largo do Carvão, onde o movimento era maior. Para o interior da Praça, e desde 1871, na zona das duas barracas então edificadas, ficava a zona de exposição e venda de tudo o que é possível associar a um mercado tradicional: os legumes e frutas; os animais e ovos; os cereais e o pão; as loiças, os cestos, as alfaias, os comes-e-bebes, e tudo o mais.
Com raízes prováveis no século XVII o primitivo Mercado da Ribeira prosperou, acompanhando o crescimento da população da povoação e Vila. Beneficiou depois do alteamento e alargamento da primeva Praça da Ribeira (1777-1784), e mais ainda, do alargamento que levou à criação de uma segunda praça (1852-1857), mais a sul (desde 1880 denominada Largo Luís de Camões), na qual se instalaram as duas barracas referidas, e só demolidas depois da inauguração do novo Mercado, no início do Verão de 1892.
Com isto presente, ficamos perante uma imagem que nos pede para irmos além daquilo que parece documentar: não o Mercado vivo que a Praça soube acolher e dinamizar durante mais de dois séculos, mas, ao contrário, uma espécie de representação do seu epílogo, já apelando à memória, precisamente no altura em que as exigências fundadas num novo conceito de Mercado venciam, ali perto, num edifício vasto e aberto, mais próximo do mar.
FM
Notas:
1) Trata-se de uma gravura litografada, com base fotográfica desconhecida, extraída da publicação Souvenir da Figueira da Foz, publicada em Lisboa por Leopoldo Wagner, sem data, mas que, provavelmente – olhando ao conteúdo desta e das muitas imagens que nos dá da Figueira e Termas da Amieira – terá sido editada por volta de 1899-1900.
2) Entre outras, são de uma grande relevância as descrições feitas em 1878, por Amorim Pessoa, no Almanach da Praia da Figueira para 1878-1879 , e na edição seguinte do mesmo, em 1879 (disponíveis na Sala Figueirense), e em 1935, por José da Silva Fonseca, no Album Figueirense, Ano II, nºs 3 a 5 (disponíveis em http://www.historiasdafigueiradafoz.com/histaciff/AciffDocs.aspx?id=6 ).
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Este texto foi publicado originalmente no jornal "A Voz da Figueira", de 04/09/2019. Republica-se agora com significativas alterações.

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