Giuseppe Sartoris na Figueira da Foz

J. Sartoris CDV, Coimbra c.1885 (colecção particular)

    São muitos os fotógrafos dos primórdios da Fotografia de quem vamos encontrando referência da sua actividade, mas da qual poucas imagens nos chegaram.  Muitos olhares se perderam pela fragilidade dos suportes fotográficos e pela essência por vezes volátil da fixação da imagem. O desinteresse e desleixo na sua conservação associam-se facilmente aos acidentes fatais. Lembramos o caso do espólio fotográfico do grande Carleton Watkins, destruído pela acção do tremor de terra seguido de incêndio em S. Francisco, 1906.

    Não será propriamente o caso de José Sartoris, do qual nos chegaram muitas das suas fotografias de Coimbra. Já a sua passagem pela Figueira da Foz está ainda por descobrir.

    Giuseppe Sartoris (1841–1901), fotógrafo originário de Piemonte, Itália, adopta em território português, o nome de José Sartoris. No início da sua atividade, passou por várias localidades até se fixar em Coimbra a meio da década de 70 do séc. XIX com estúdio em nome próprio, na Rua das Figueirinhas, n.º 47 e Corpo de Deus, n.º 95 a 97.

    Na anterior década de 60, sabemos da sua atividade na Galiza com Fotografia Franco-Ispano-Italiano de Sartoris na Acevedo 60, Coruña e depois no Porto, nos anos de 1867 e 1868, onde manteve sociedade com Alfredo Douquet Lopes Chaves no Gabinete Photographico Chaves & Sartoris, na rua de Santo António, nº205 (1). 

    Casado com Maria de Jesus Pereira, tem três filhos, Alberto Sartoris, Virgínia Sartoris, Maria da Luz Pereira Sartoris. Estabiliza a sua actividade fotográfica em Coimbra, por mais de 20 anos, integrando-se socialmente na cidade e envolvendo-se em diferentes atividades culturais. 

    Participa na Exposição Distrital de Coimbra de 1884 onde foi premiado com a Medalha de Prata, participa também na Exposição Internacional do Porto em 1886 obtendo uma menção honrosa.

    Foi co-proprietário com José Luiz da Costa, do periódico Panorama Contemporaneo (1883-1884), publicação quinzenal dirigida por Trindade Coelho, que teve a colaboração de Camilo Castelo Branco e outras personalidades da cultura portuguesa da época. A publicação estava sediada na Rua Corpo de Deus, n.º 95, a mesma morada do estúdio fotográfico de Sartoris (2).

    Entre 1896 e 1898 iniciou um projeto de registo fotográfico dos monumentos nacionais, que deu origem à publicação Portugal Artístico e Monumental (3)Sob a orientação de António Augusto Gonçalves, produziu imagens de monumentos portugueses para a referida publicação e colaborou no registo fotográfico da investigação artística e arqueológica das colecções do Museu de Antiguidades do Instituto de Coimbra, mais tarde denominado Museu Machado de Castro.

 

J. Sartoris, Fachada Igreja de S. Tiago, Coimbra, década de 80 do séc. XIX 
(colecção do Museu Nacional Machado de Castro em Coimbra)

    Manteve durante algum tempo estúdio fotográfico na Figueira da Foz, com a Photographia União que abria sazonalmente, precisamente na rua que lhe terá dado nome, a Rua da Boa União junto ao Teatro Circo Saraiva de Carvalho e disso nos dá conta o anúncio de 25 de julho de 1894 na Gazeta da Figueira: “Photographia União. De J. Sartoris (Photographo de Coimbra) Rua da Boa União (Junto ao Teatro Circo) Figueira a Foz - Retratos perfeitamente acabados desde 600 reis a dúzia”. Mas também no mesmo ano o registo, no livro de Licenças para tabuletas da Câmara Municipal da Figueira da Foz, do seu pedido de licenciamento de um letreiro para o estúdio da Rua da Boa União.

    Apesar da sua atividade fotográfica se concentrar sobretudo em Coimbra, temos registo de deslocações de trabalho a outras localidades. Em Viseu onde também abriu por algum tempo a Photographia União, de onde conhecemos alguns CDV (4). Encontramo-lo também em Beja, em junho de 1899, anunciando estúdio na Rua do Correio, n.º5 (5) e possivelmente também em visita a novos familiares alentejanos, por via do casamento da sua filha Maria da Luz com João da Penha Salema Coutinho, no início do mesmo ano.

    Já no final da sua vida e da atividade fotográfica, teve residência e estúdio na rua Guedes em Coimbra, onde a 7 de julho de 1900 deflagrou um violento incêndio. Esta mesma situação já tinha ocorrido em 17 de Junho de 1886 e por outra vez a 21 de Novembro de 1888. Foi por três vezes que J. Sartoris viu os seus  estúdios serem devorados pelo fogo e podemos perceber o património fotográfico destruído (6). 

RF

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Notas:


(1) CDV Coruña/Porto

J. Sartoris, CDV, Coruña/Porto (colecção particular)


































(2) Foto Panorama Contemporaneo










(3) O Conimbricensede 8 de Julho de 1896











(4) – CDV Viseu


J. Sartoris, CDV, Viseu (colecção particular)













(5) – Notícia em jornal de Beja:

"PHOTOGRAPHIA SARTORIS

Até 30 de Junho na Rua da Correio, n.º 5

Retratos em todos os tamanhos e a crayon trabalho perfeito e baratissimo. Quem não ficar satisfeito com a amostra nada terá pagar."

Nove de Julho, Ano XIV. N.º 818, 17 de Junho de 1899


(6) – Notícias dos incêndios nos estúdios de J. Sartoris

Tribuno Popular de 19 de Junho de 1886















Conimbricense de 24 de Novembro de 1888

















Tribuno Popular de 11 de Julho de 1900




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