No post anterior, A Photographia Ubaldi – Uma novidade, revelámos uma descoberta feita no AFMFF. Hoje revelamos uma outra, ainda no mesmo Arquivo: a associação de uma fotografia conhecida, mas até aqui sem autoria, a uma das 3 gravuras da Figueira que foram publicadas na revista “O Occidente” em 1883, a partir de clichés de C. Ubaldi (1). Trata-se, afinal, da fotografia que ainda não tinha sido identificada nesse lote.
Percebe-se no visível que o fotógrafo procurou registar um momento festivo, ligado à presença das muitas bandeirinhas coloridas e do aglomerado de gente que parece estar a aguardar, debaixo dum sol rigoroso e de chapéus salvadores, a chegada ou a passagem de alguém. Parece haver um lado cerimonioso, que o aparato das ricas colchas existentes no parapeito das janelas da “Casa do Redondo” ajuda a sublinhar. Nota-se também que a concentração popular e a força das bandeiras se prolonga, na Rua Príncipe Real, na direcção do edifício situado a leste do Teatro, o dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, ao que parece ainda mais embandeirado que o Teatro.
A investigadora Guida Cândido publicou esta fotografia num estudo seu , publicado em 2019 (3), mas sem promover a associação da mesma ao fotógrafo C. Ubaldi. Esta autora associou a imagem ao dia da chegada do Rei D. Luís e da Rainha Maria Pia e toda a comitiva acompanhante, o dia 3 de Agosto de 1882, o da inauguração da Linha da Beira Alta, interpretação que aceitamos, embora pareça faltar algum aparato nas imediações do Teatro e da Doca, não só de gente, mas também de protecção policial-militar, para um Cortejo Real que parece que irá verificar-se dentro em pouco. Com efeito ele veio a ocorrer, em carruagens e com desfile militar, na direcção da Igreja Matriz, para um Te Deum cerimonioso, logo que os discursos e cerimónias de recepção, na Estação terminaram e o permitiram.
Outros elementos presentes na fotografia não põem esta versão em causa: está presente o gradeamento da Doca aplicado poucas semanas antes, e as letras em bronze, colocadas no frontão do Teatro em Junho, parecem ressumar de novidade, ainda...
Faltará apenas chamar a atenção para as diferenças que se verificam entre a gravura e o cliché, a par das óbvias semelhanças. Elas eram normais na época, já que os gravadores dispunham de uma margem de invenção razoável, olhando aos interesses e objectivos editoriais, mas haverá que acautelar a hipótese de ter sido utilizado um outro cliché, muito próximo deste e da "família" dos que C. Ubaldi terá registado nesse dia, mas dos quais não temos, até ao momento, qualquer conhecimento.
FM
Notas:
1) Ocidente - Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro, de 1 de Junho de 1883
(https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/obras/ocidente/1883/N160/N160_item1/P5.html)
2) Em resultado do uso do processo do colódio húmido para a obtenção do negativo: como obrigava a um tempo de abertura longo, as desfocagens provocadas pelo movimento eram normais...
3) “As fontes não mentem. As fotografias da inauguração da linha da Beira Alta da Figueira da Foz”, in "II Encontros de Cultura e Património - A Visita Real de 1882", CMFF, “Cadernos Municipais”, nº 53, 2019.

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