O autor das fotografias do post anterior posicionou-se numa das duas janelas do sótão do "Castelo do Engenheiro Silva", levantadas em 1912 (1) aquando do alteamento da casa (mais 2 pisos e o sótão).
Em ambas o ponto de vista do fotógrafo não permite ver o Largo que ficou escondido a sul, logo após a empena da casa de que nos mostra o telhado e que foi mandada construir por António Baldaque da Silva, com 2 pisos, em 1903. Mais tarde, em 1913, esta casa foi também alteada, e com um estilo arquitectónico tão particular que veio a justificar a denominação popular de “Casa das Conchas”.
O BPI que juntamos mostra-nos bem de que Largo falamos: o “Largo Coronel Galhardo”, assim chamado por uma determinação camarária de Março de 1896. A homenagem veio no seguimento dos festejos da vitória conseguida pelas tropas portuguesas, comandadas por este militar, em Novembro de 1895, sobre a resistência anticolonialista liderada pelo régulo Gungunhana, festejos que se ampliaram após o regresso das tropas, no início de 1896. E a verdade é que esta decisão, de uma forma até surpreendente, não foi posta em causa até hoje, apesar do quase desaparecimento do Largo (2).
Joseph James Forrester - "Castello da Figueira" - 1835
Antes, porém, o Largo teve outra designação, que a estampa famosa de Joseph James Forrester que juntamos, publicada em 1835 (3), ajuda a explicar devidamente: o “Largo do Forno da Cal” ou só “Largo do Forno”. O forno que nela vemos e que lhe deu o nome foi mandado construir, em 1819, pelo director geral das minas do Reino, José Bonifácio de Andrade. Era destinado à cozedura da pedra calcária que abundava nas suas proximidades, por um sistema que empregava o carvão de pedra da mina de Buarcos. O objectivo era que essa cal fosse aplicada nas primeiras obras estatais realizadas no nosso porto e barra (4). Nessa altura o sítio do Bairro Novo não era mais que areia, pedras e vegetação dunar, como se percebe na imagem. Do “Viso” que era todo aquele alto via-se bem, em baixo, o Forte de Santa Catarina, que, como se vê, foi representado com um realismo que é preciso valorizar, uma vez que nos apresenta a mais fiel imagem que possuímos dele do período anterior ao nascimento da Fotografia.
Largo Coronel Galhardo (col. AFMFF)
Esta outra imagem, do AFMFF, mas publicada nos trabalhos de Inês Pinto referenciados, ajuda-nos a situar o mesmo Largo numa época aproximada da imagem do BPI, mas revelando o bloqueamento que sofria o mesmo a sul, devido à presença do edifício dos escritórios das empresas do Cabo Mondego. Sabemos que a Câmara em Março de 1909 tomou a decisão de ajardinar o Largo. Olhando a esse facto e à presença, no lado norte, da versão inicial da que veio a ser depois a Casa das Conchas, ficamos com os elementos que permitem contextualizar temporalmente as duas fotografias: entre 1909 e 1912. Para se conseguir apertar este intervalo haverá que situar o acontecimento social que o BPI parece testemunhar, mas aí ainda não foi possível chegar...
FM
Notas:
1) - Inês Pinto, Percursos Turísticos na Figueira da Foz – Patrimonialização e Funcionalização do Castelo Engenheiro Silva, FLUC, Coimbra, 2019, p110.
- Inês Pinto, Francisco Maria Pereira da Silva, engenheiro hidrógrafo. Das obras do Porto e Barra da Foz do Mondego ao Conjunto Arquitetónico da Esplanada António da Silva Guimarães, na Figueira da Foz, CMFF/CEAACP/UC, s/d, p132
2) O mesmo não aconteceu com a decisão, que foi tomada na mesma altura, de chamar ao antigo Largo do Carvão o “Largo Mouzinho de Albuquerque”, que foi depois revertida, por não ter sido aceite pela população.
3) J. J. Forrester, "Portuguese scenery with Illustrative notes", Porto, 1835 – notas para viajantes acompanhadas por 10 gravuras, a preto e branco: nove delas com aspectos do Porto e arredores; a restante, relativa à Figueira e intitulada “Castello da Figueira”. Tratou-se de uma reprodução feita a partir das aguarelas originais, que só depois foram reproduzidas litograficamente e publicadas a cores, embora feridas de alterações e acrescentamentos.
4) Maurício Pinto, Ingleses na Figueira, in Maurício Pinto – No primeiro centenário do seu nascimento (1884. 21 Agosto . 1984), CMFF, Cadernos Municipais – 15, s/d, p132



Comentários
Enviar um comentário