A Exposição de Lisboa - 2003 (1)
Carlos Relvas (1838-1894) é uma das figuras incontornáveis da fotografia portuguesa e mundial do século XIX (1). Por sorte nossa, é também a figura tutelar da fotografia figueirense desse século, aquela a quem, por tradição local, dos que se foram interessando por estas coisas, foram sendo atribuídos trabalhos sobre trabalhos – alguns até já do século XX! -, quando não eram conhecidos os seus autores...
Descendente de abastados lavradores da Beira e do Ribatejo, foi ele próprio, depois, um poderoso proprietário rural nobilitado e de múltiplos talentos – lavrador, criador de cavalos e cavaleiro tauromáquico, músico, inventor e fotógrafo. Pelo casamento jovem com a filha do Conde de Podentes, viu a sua fortuna ser muito acrescentada, não só em termos económicos como políticos. A família dos sogros, com importantes propriedades e palácio em Condeixa, fazia tradicionalmente os períodos de veraneio em Espinho, comportamento que desde cedo Carlos Relvas e a esposa Amália Azevedo acarinharam.
Embora não conheçamos as razões em pormenor – mas é certo que estiveram muito ligadas às relações de amizade, provavelmente vindas de Coimbra, com a família figueirense do médico José Maria de Lemos (e particularmente com o seu filho José Maria de Lemos Júnior), que levantou em 1838 a casa que, já no século XX, foi depois Colégio, Hospital Militar e a “Casa da Mãe” – a verdade é sabemos que a Figueira entrou na rota das relações de C. Relvas, inicialmente – em 1883 e 1884 - pela via da tauromaquia e do seu gosto pelo mar, para depois, e já no quadro do seu 2º casamento (em 1889), para aqui passar três largos períodos de veraneio, nos meses de Agosto e Setembro de 1890, 1891 e 1893, este último já muito perto da sua morte.
Depois de um período de largo esquecimento, os estudos sobre a riqueza da sua obra evoluíram muito e depressa, particularmente depois da publicação da obra pioneira de António Pedro Vicente “Carlos Relvas Fotógrafo – Contribuição para a História da Fotografia em Portugal no século XIX”(2), e, mais particularmente ainda, depois que se decidiu avançar com o programa de recuperação do seu Estúdio-Casa, na Golegã (1871-1875) – um edifício arquitecturalmente valioso e único a nível mundial, com um espólio de mais de 13 mil negativos, as máquinas e objectivas do artista, o laboratório e uma importante biblioteca de fotografia – e de criação e instalação no mesmo de um espaço museológico, a Casa-Estúdio Carlos Relvas, aberta ao público em 20 de Abril de 2007.
Não nos compete fazer aqui a História dessa rápida e profunda evolução historiográfica, mas no que à História da Fotografia Figueirense interessa, gostaríamos de destacar uma outra e muito fundamental realização pioneira: a concretização da 1ª grande Exposição da sua obra - “Carlos Relvas e a Casa da Fotografia”-, que decorreu em Lisboa, no MNAA, em Junho de 2003, com a curadoria de Vitória Mesquita e José Pessoa, embora apenas relativa ao espólio da Casa-Estúdio, da Golegã. No Catálogo de grandes dimensões então publicado (3) constam várias fotografias figueirenses, na sua maioria, no entanto, não identificadas como tal, ou, num caso - o da imagem nº 267 -, incorrectamente atribuída ao Castelo do Queijo, no Porto (mas sendo manifestamente tirada junto ao nosso Forte de Santa Catarina).
E é por aqui que vamos começar a abordar a obra figueirense de Carlos Relvas: pela inventariação das imagens figueirenses do Catálogo da Exposição de 2003 (4) e pela apresentação aqui de algumas delas, como exemplos da importância das suas fotografias para a recuperação de uma parte do passado oitocentista figueirense.
FM
1) Foi enorme o reconhecimento internacional deste artista-fotógrafo, membro da Sociedade Francesa de Fotografia desde 1870, e activo e premiado participante das maiores exposições de fotografia do seu tempo, em Londres , Paris, Amesterdão, Bruxelas, Filadélfia ou Viena...
2) Escrita em 1982, mas só publicada pela INCM, de Lisboa, em 1985.
3) Carlos Relvas e a Casa da Fotografia, MNAA, Lisboa, 2003.
4) As imagens nºs 104, 107, 109, 110, 111, 267, 270, 271, 272, 280, 283 e 284.



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