Duas imagens felizes...

 FIGUEIRA, FIGUEIRAS 4

 

"Forte de Sancta Catharina - Na Villa da Figueira da Foz"

Panorama Photographico de Portugal, nº11, 1871

    

    Deixamos mais dois exemplos ligados ao problema da datação de imagens fotográficas. Ambos constam da obra Panorama Photographico de Portugal, que foi publicada em Coimbra, em fascículos, entre Novembro de 1869 e finais de 1874, sob a direcção de Augusto Simões de Castro (1). Tratam-se de dois dos mais felizes documentos da iconografia figueirense.

    Comecemos pelo Forte. A sua majestade e estatismo pétreos dominam por completo a imagem, mas a presença, à esquerda, duma figura que nos observa gera uma perturbação que nos descentra desse peso excessivo, e nos empurra para um exercício dinâmico de comparação de escalas (2). É uma imagem valiosa, não só por documentar o cansado estado físico da fortaleza, já há muito militarmente inútil, mas por nos mostrar como era importante para a navegação portuária. Atesta-o a presença do discreto lanternim, encimando a cobertura da Capela, que até data incerta funcionou como luminária de apoio (“luz-de-porto”), até mais tarde, já em 1886, surgir o Farolim que hoje é ainda alvo de admiração(3). A publicação desta fotografia ocorreu no fascículo nº 11, saído antes de Agosto de 1871. Não temos a garantia de ter sido tirada nessa altura, mas olhando ao espírito da obra é de crer que seja desse ano. Mas ficamos com o óbvio: a de ela não poder ser posterior à data em que foi publicada. Sobre a autoria da mesma nada nos é dito, o que é uma pena, embora o investigador Alexandre Ramires, no Catálogo da Exposição “Revelar Coimbra – Os inícios da Imagem Fotográfica em Coimbra – 1842-1900 (MNMC, 2001) a atribua a um fotógrafo coimbrão – Francisco Teixeira d’Araújo (4).



"Theatro da Figueira"
Panorama Photographico de Portugal, nº11, 1874

    O mesmo não se passa com esta imagem do Teatro Príncipe (ainda sem essa designação, como se pode ver olhando o frontão da fachada): não só nos é dito, no texto, o nome de quem a produziu – o Francisco Ferreira de Loureiro, responsável pelas obras, a par com o autor do projecto e irmão, o Engº Adolfo Loureiro -, como fica evidenciado no seu próprio conteúdo o ano e o momento documentados. Vejamos: a foto foi publicada em Novembro de 1874, mas como é visível o cliché pretendeu surpreender e fixar os trabalhos finais da construção, concentrando-se mesmo a sua dinâmica principal nos arranjos finais da fachada e espaço fronteiro. Ora sabemos que a inauguração do Teatro ocorreu em 8 de Agosto de 1874, com as obras concluídas. A fotografia terá de ser, portanto, anterior embora próxima a essa data.

    Uma nota final sobre a riqueza iconográfica desta imagem: é das muito poucas existentes a documentar a fase inicial da ocupação do aterro do Cais e da Doca. Como se vê o edifício encontra-se ainda isolado (à esquerda, ao fundo, apenas a casa do Conde de Verride), e é visível, em redor, parte da área onde nos anos subsequentes crescerão os edifícios emblemáticos do novo bairro da baixa da vila-cidade, o “Bairro do Teatro”, que na sua grande maioria ainda hoje lhe vão marcando o carácter.


Notas:

1) Nesta obra colaboraram, dois dos mais importantes fotógrafos do século XIX português – Carlos Relvas e Francisco Rocchini (António Sena, História da Imagem Fotográfica em Portugal-1839-1997, Porto Editora, Porto, 1989, p. 58 e 392) -, mas na sua fase inicial a colaboração principal terá pertencido a Francisco Teixeira d’Araújo, proprietário do Estúdio coimbrão “Photographia Académica Conimbricense”. Nela colaboraram várias outras personalidades do tempo, no que respeita à elaboração dos textos enquadradores e outros. Duas das 48 albuminas da obra, referem-se à Figueira. As imagens foram coladas nas folhas dos fascículos, como forma de superação das limitações de reprodução tipográfica que existiam na época. Posteriormente os fascículos foram reunidos em 4 volumes, existentes na Sala Figueirense da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz. Deles retirámos as cópias das imagens.

2) O facto de se usarem cópias para as colagens levou a que se tivessem publicado fotos diferentes em alguns dos exemplares dum mesmo fascículo. No caso em apreço isso aconteceu, criando uma situação que hoje tem uma importância especial: num dos volumes existentes na Sala Figueirense existe este exemplar que reproduzimos; noutro existe uma outra, que se percebe ter sido tirada na mesma altura, em sequência temporal, mas sem qualquer presença humana.

3) Manuela Silva, Santa Catarina: Capela, Forte e Farol-Imagem de um território, in Forte de Santa Catarina – Imagem de um território, Caleidoscópio, Figueira da Foz, 2018, p.31.

4) Voltaremos a esta fotografia lá mais para a frente no tempo. Talvez estejamos em presença de uma imagem de Carlos Relvas. Depois procuraremos explicar porquê...

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Nota: Este texto foi publicado originalmente no jornal "A Voz da Figueira", de 23/07/2019. Republica-se agora com algumas alterações.

FM

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