Carlos de Avelar na Figueira - 1

 

https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/obras/ocidente/1887/N295/N295_item1/index.html

    Precisamente no ano em que Joaquim de Campos Ribeiro inaugurava o seu atelier particular - como se viu num texto anterior -, punha termo à sua aventura figueirense o fotógrafo Carlos de Avelar, depois de mais de uma década de residência e actividade por cá – de início (1880), na rua dos Banhos, com a sua lisboeta “Photographia Lisboa & Açores”, e depois, na rua da (Boa) União (hoje Dr. Calado) com a sua “Photographia Avelar” (com uma designação idêntica à do estúdio açoriano do irmão, Severino João).

    Não dispomos de datas certas para o abandono, mas em Janeiro do ano de 1888, já o julgamos novamente instalado em Lisboa, uma vez que para lá pede, no dia 7, a transladação do cadáver do seu filho Carlos Alberto, de 16 anos, morto tragicamente na nossa praia em Março de 1882. No Verão desse ano de 1887 ainda o sabemos por cá, mas sem anunciar nos jornais.

    Nesse ano ainda, na revista “O Occidente”, é publicada a gravura que divulgamos, com base numa fotografia sua. É uma imagem para nós preciosa, duma Buarcos que consta noutros trabalhos seus, que a seu tempo divulgaremos. Sabemos que depois se manterá pela capital, no Largo Conde Barão, onde a sua “Photographia Avelar” funcionará durante largos anos, antes de se mudar, já nos inícios de novecentos, para a rua D. Pedro V, na zona de Alcântara.


Carlos Severino de Avellar, Largo do Conde Barão e Travessa do Cais do Tojo, Lisboa c. 1893
In "Provas Originais, 1858-1910", ed. Arquivo Fotográfico,  C. Municipal de Lisboa 1993

    Não conhecemos as razões do seu abandono, mas o facto de se ter estreado a publicitar nos jornais da Figueira apenas no Verão de 1886, na fase já da Photographia Avelar, leva-nos a supor que estaria perante dificuldades económicas, em resultado certamente da concorrência crescente, no período estival, dos fotógrafos de Coimbra e de outras cidades, associada à presença dinâmica e permanente, na rua dos Banhos, desde 1888 - e ali bem perto! -, da “Photographia Europa”, vinda também de Lisboa, com o seu proprietário, José Gonçalves.

    Outros factores, ainda mais de fundo, terão pesado na decisão de desistência da sua aposta figueirense: por um lado, certamente a dor pela perda trágica do filho mais velho, logo na fase inicial do seu novo Estúdio; por outro, as dificuldades imensas que foram advindo dos atrasos da urbanização do Bairro Novo, ligadas às dificuldades financeiras dos poderes municipais, e que levaram a que a abertura e consolidação urbanística da rua da Boa União (desde o início dos anos 70), onde erigiu a sua casa-estúdio em 1881-82, sofresse atrasos sobre atrasos (que se prolongaram pelos anos 90!...), e que muito devem ter contribuído para afastarem repetidamente daquela rua muitos dos seus eventuais clientes!

    E não é por acaso que juntamos aqui estes dois amantes da Fotografia. É que ambos foram protagonistas na criação de raiz e na abertura – embora com intenções e âmbitos claramente diferenciados – de duas das experiências mais marcantes da história da fotografia figueirense, que até hoje, permaneceram praticamente desconhecidas e, por isso, sem possuírem ainda o reconhecimento que merecem.

FM


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