Ubaldi na Figueira

Correspondência da Figueira, 9 de Agosto de 1877

Diário Ilustrado, Lisboa, 18 de Agosto de 1877

    Não sabemos o que levou C. Ubaldi a trocar a alfaiataria pela fotografia, mas para além do gosto pessoal, devem ter sido determinantes as questões económicas. Em 1865 os processos fotográficos tinham evoluído bastante, e a moda dos CDV referida num post anterior– inventados em 1851-54, em França- não parava de se ampliar, sobretudo junto das classes médias. No contacto com o L. Amery, Ubaldi deve ter compreendido que desde que se garantisse uma renovação frequente de clientela os rendimentos da actividade fotográfica estavam entre os mais compensadores da época, e para aí se voltou. Na altura (1865-66) já se aproximava dos 4 anos a sua única filha, Virgínia, e embora não sabendo se em exclusivo, ou se em paralelo com a alfaiataria, ou se ainda em Viana ou já fora dela, Ubaldi deve ter decidido "pôr os pés ao caminho", iniciando-se, provavelmente na época balnear, em algumas das praias próximas, certamente com destaque para a Póvoa de Varzim, onde a sua presença está assinalada (1), embora não documentadamente. O público das praias e das termas, pela sua composição social, era o ideal para estes primeiros fotógrafos, necessariamente itinerantes, como já se explicou noutro post. Mas o público das cidades e do interior – sobretudo nos tempos de festas, feiras e romarias – era também apetecível, e esse percurso – de que já conhecemos várias facetas - foi cumprido por C. Ubaldi antes de chegar à Figueira.

    Em 1868? Em 1869? Somente em 1876? Será difícil discernir da sua actividade como ambulante, e sobre as suas eventuais passagens pela Figueira ou zonas próximas de Coimbra, antes do momento criador que foi o da abertura do Estúdio. Não sabemos sequer se o abriu apenas para um Verão e tendo gostado permaneceu, ou se isso resultou de uma decisão ponderada, de natureza familiar ou outra. Mas a análise dos elementos disponíveis até ao momento faz encaminhar a resposta para o ano de 1876. Desde logo pela menção no anúncio inicial, como sítio do Atelier – mas só nele, o que não deixa de ser estranho - o da Casa do Telégrafo (que lá funcionou de Setembro de 1859 a  finais de 1866) -, no nº1 do “Largo Detrás da Igreja”, o que parece ser indiciador dum acto de novidade na Vila. Mas há um 2º elemento a reforçar esta nossa convicção: a colocação de anúncios do estúdio num jornal lisboeta – no Diário Ilustrado – durante o Agosto do ano seguinte - claramente numa estratégia de afirmação junto dos muitos veraneantes da capital que frequentavam a Figueira -, mas que nos anos subsequentes não repetiu!


FM


1) Paulo Baptista, A Casa Biel e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos, Lisboa, 2010, p.35.

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