FIGUEIRA, FIGUEIRAS 3
No post anterior deixámos em suspenso um problema de datação. E temos de o aclarar: se se trata de situar historicamente um instante concreto - aquele que uma fotografia “congelou”- como fazê-lo quando não existe o registo da data dele? É o caso da foto que publicámos... E quando assim é, não nos resta outro remédio que não seja recorrer ao conteúdo do documento… e tentar a aproximação a uma datação possível! Fácil? Nem por isso! É mesmo, e muitas vezes, impossível fazê-lo!
Vamos então tentá-lo relativamente a essa foto que se publica de novo. Chamo a atenção para dois detalhes fundamentais: um ligado ao Teatro Príncipe D. Carlos (inaugurado em 8/8/1874), designação que com o advento da República, em 5 de Outubro de 1910, caiu obviamente em desgraça! Não foi rápido o processo: em 21 de Abril de 1911 ainda a Voz da Justiça noticiava uma récita no “Teatro Príncipe”; mas a 2 de Maio já era do “antigo Teatro Príncipe” que falava (1). E foi fácil a solução que se encontrou: retirar do frontão triangular da fachada, onde se afixava a designação, as palavras politicamente embaraçosas. E só lá ficou a palavra “Teatro”, aquela que se vê - ainda que mal - inscrita na zona cimeira do frontão.
O outro detalhe, conjuga-se com este, e liga-se à existência, na esquerda da imagem, de dois postes telefónicos (um deles no limite esquerdo da imagem publicada, por detrás do quiosque; o outro visível junto ao gradeamento da Doca, na zona fronteira ao “Prédio do Redondo”) ainda bastante limitados quanto ao número de linhas. Ora, está documentado que a sua colocação decorreu ao longo da primeira metade de 1911 (2), e sabe-se que no final de Agosto a rede – com pouco mais de cem assinantes - já funcionava com regularidade.
Será então de 1911 – talvez em Maio, olhando à dinâmica da copa das árvores visíveis - o instante em causa ? É uma possibilidade – foi aquela que adiantámos -, mas poderá ser posterior! Anterior a Abril de 1911 é que parece não poder ser! E espero que sintam os cuidados e fragilidades contidos nesta afirmação. Mas sabemos mais: que terá de ser anterior a 24 de Fevereiro de 1914, data em que eclodiu o pavoroso incêndio que destruiu irremediavelmente o edifício.
À ruína que então restou refere-se esta outra fotografia que divulgamos, sem data conhecida, mas com elementos suficientes para determinar as balizas temporais que darão força histórica à imagem: terá de ser posterior à data do incêndio, já sabemos, mas ainda posterior a uma outra: a de meados de Julho de 1919, altura em que se procedeu, por risco de derrocada, à demolição das paredes “até à altura do 1º andar” (3); terá de ser anterior, no entanto, ao momento da demolição integral do edifício, que só ocorreu no início de 1928.
Nesta 3ª fotografia repare-se, por fim, na zona de confluência da Rua da República no Cais. Em finais de 1939 a Câmara decidiu-se a resolver o problema. Um ano depois a obra concluía-se (4) e a fotografia aérea que divulgamos – também sem data e autoria conhecidas – parece mesmo ter sido feita para fazer a propaganda dela e dos seus efeitos para a Praça Nova e Cais, e para a circulação rodoviária. Observem-na e vão o mais longe possível!
1) A Voz da Justiça, 2 de Maio de 1911.
2) “Estão prosseguindo activamente os trabalhos da rede telefónica desta cidade, vendo-se já montados os fios nalgumas ruas. (…) A rede deve inaugurar-se já na próxima época balnear” - A Voz da Justiça, 6 de Junho de 1911.
3) A Voz da Justiça, 18 de Julho de 1919.
4) “Estão quase concluídos os trabalhos do paredão da doca no espaço conquistado ao rio para o prolongamento da rua da República; falta apenas concluir a rampa de serviço de cargas e descargas de embarcações” - Jornal-Reclamo, 9 de Novembro de 1940.
FM
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