FIGUEIRA, FIGUEIRAS 2
BPI - Cliché de Adelino Alves Pereira, Edição da Papelaria Moderna, Figueira da Foz, s/d
Há 150 anos começou a construir-se a Doca que a imagem documenta. Falámos anteriormente do seu desaparecimento. É tempo de a olharmos num dos muitos instantes da sua existência.
Fazê-lo antes da invenção da técnica fotográfica (Daguerre, 1839; Fox Talbot, 1841) implicaria o recurso inevitável ao desenho, à gravura ou à pintura, num esforço, maior ou menor, de aproximação à realidade observável. Temos alguns exemplos desses no que à Iconografia Figueirense respeita, mas, por agora, é à Fotografia que recorremos. E se há coisa que ela parece ter conseguido, revolucionariamente, graças à Química, foi a obtenção de imagens exactas, isto é, “reais”, que não resultam de uma interpretação, mais ou menos fantasiada, do que está a ser representado no acto de fixação de um instante… Claro que está lá o olhar da lente e do fotógrafo, aquilo que mostra e aquilo que esconde; claro que está lá o modo como, artisticamente ou não, soube compor os elementos e a luz. Mas no que mostra, no que se fixou quimicamente, está uma “verdade”, um quadro de elementos com existência real, um documento-monumento! E experimentamos, com ele, uma verdadeira possibilidade de podermos reviver momentos do passado, que estaria esquecido e inacessível, não fora a ciência e a técnica...
Centremo-nos então na foto de hoje. Como se vê oferece-nos um instantâneo de grande parte da velha Doca, no sentido nascente. E o que nos documenta-revela é da maior importância para a compreensão da verdadeira revolução urbanística que a Vila começou a viver a partir do final da década de 60 do século XIX: antes de mais a concretização do grande aterro, visível quase ao centro da imagem, destinado à criação do novo Cais, que fez avançar muito a Vila sobre o rio, e fez nascer o então chamado “Bairro do Teatro”, ao qual, a poente, se adossou, na mesma época, a Doca. Nele são visíveis, da esquerda para a direita, alguns dos edifícios mais emblemáticos da história da cidade: a chamada “Casa do Redondo”, da época do Teatro Príncipe D. Carlos (1873-74) e do edifício onde se instalou a Companhia dos Comboios da Linha da Beira Alta (1880); a Câmara Municipal (1894-1897) e, claro, as três grandes ruas, não menos emblemáticas, da baixa da Vila-Cidade. Peço-lhe leitor, quanto a elas, uma especial atenção na observação do sítio onde a Rua da República vinha desembocar. Num próximo texto veremos porquê. Três notas mais, também bem marcantes: a presença, à esquerda, da linha do “Americano” (1874-75; 1876 para passageiros); a existência, ao fundo, da primeira ponte da cidade (1901-04; 1906-07 a abertura); por fim a "estranha" e total ausência de veículos de circulação motorizada...
Fechamos com um problema: o da proposta de datação deste instante - 1911? Mas a nota já vai longa e isso terá de ficar para a próxima viagem.
FM
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