Abertura - Rotas da Fotografia Figueirense


“Correspondência da Figueira” de 18 de Junho de 1876

    Quase 12 anos depois do desaparecimento do jornal pioneiro “O Figueirense” (1863-64) nascia por cá, como 2ª experiência, o “Correspondência da Figueira”, que logo no seu número inicial, de 18/6/1876, publicava um anúncio de forte significado simbólico para a história da fotografia figueirense: o da Photographia Ubaldi, nome inicial do primeiro Atelier permanente de fotografia da Figueira. O anúncio, que  foi depois repetido ao longo desse Verão não identificava o fotógrafo – o italiano, da cidade de Fermo, Cesare Ubaldi -, mas esclarecia que o Estúdio abrira na “antiga casa do Telégrafo” (referência apenas indicada no 1º anúncio publicado...) e cobrava “preços cómodos”, o suficiente para desencadear, mais tarde, entre os estudiosos uma curiosidade especial, que a longa permanência do Estúdio na Figueira (até ao final de 1897!) ajudou a ampliar.

C. Ubaldi, CDV 1880 (colecção particular)

  Não cabe aqui especular sobre a data de abertura do Atelier - que é provavelmente desse ano, embora existam elementos documentais, de que noutro local falaremos, a ligarem trabalhos de C. Ubaldi a uma família figueirense cerca de 1868-69… - mas foi um gosto comum pelo esclarecimento do valor pioneiro deste fotógrafo italiano que há mais de quatro anos aproximou os autores deste Blog, e os mobilizou para um profícuo trabalho colaborativo, que se foi depois ampliando até abranger uma parte importante da fotografia figueirense: a da 2ª metade do séc. XIX e da 1ª do séc. XX.

    Pouco existe publicado sobre a História da Fotografia Figueirense. A única síntese global conhecida - “Fotografia na Figueira da Foz” , integra o Projecto de Mestrado da Dra. Ana Domingues (Técnica Superior do Arquivo Fotográfico Municipal), apresentado em 2014 (1). Trata-se de um trabalho obviamente  muito meritório, mas limitado na sua extensão e alcance, em consequência dos objectivos da Tese (2). Não devem também ser esquecidas as valiosas contribuições pioneiras, embora parcelares, da responsabilidade da Dra. Guida Cândido: o artigo O Fotógrafo Carlos Relvas e a Figueira da Foz, publicado na revista Rua Larga, nº 14 (2006); da sua responsabilidade e dos Serviços Culturais da Câmara Municipal, e na colecção dos Cadernos Municipais: o livro "Manuel dos Santos - a imagem dum talento" (2005); as publicações “Casa Havanesa” (2007) e “A Figueira dava um Postal” (2008) e, mais recentemente, em 2019, o artigo As fontes não mentem. As fotografias da inauguração da linha da Beira Alta da Figueira da Foz, publicado no livro "II Encontros de Cultura e Património da Figueira da Foz - A Visita Real de 1882" (p229-251) -, embora sejam igualmente óbvias as limitações das mesmas para o estabelecimento de uma visão global e interpretativa da evolução da fotografia figueirense, isto é, daquela que se encontra intimamente ligada à História da Figueira, embora realizada por fotógrafos de origens bem diversas. O mesmo se verifica ainda num outro estudo parcial, da autoria do Dr. Miguel de Carvalho - A Transição entre os séculos XIX e XX na Figueira da Foz: aspectos socio-culturais e seu enquadramento geo-natural através do contributo da fotografia -, publicado, em 2006, no volume das Actas do Colóquio "As Ciências da Terra ao serviço do Ensino e do Desenvolvimento", edição do Kiwanis Clube, da Figueira da Foz, com interesse relevante, embora e em particular pela importância dos documentos fotográficos da sua colecção que aí divulgou.

 

    E é no quadro deste contexto que nos decidimos a avançar com a criação deste Blog. Nele desejamos poder sistematizar as informações de que já dispomos, mas também aquelas que formos obtendo, e que pela sua relevância achemos que devemos divulgar, como modesto mas rigoroso contributo para o alargamento do conhecimento e da compreensão do que foram as “Rotas” principais que a evolução da fotografia figueirense seguiu no período já indicado. 


   Contaremos para isso com a colaboração indispensável do Arquivo Fotográfico Municipal, e com toda a riqueza dos seus colaboradores e espólio. E, claro está, não atingiremos os nossos propósitos de comunicação, se não conseguirmos criar uma comunidade de leitores interessados, que nos possa acompanhar.



FM/RF




 

(1) Digitalização e disponibilização de um espólio com Thesaurus temático em plataforma digital: aplicação a case-study do fundo da Casa Havanesa sobre a Figueira da Foz na Grande Guerra – UC, 2014.


(2) Na publicação Santos Rocha-Arqueologia e Territórios da Figueira da Foz (FF:2021), no artigo Do Cabo Mondego à Estação CP - António da Silva Guimarães e a Linha do Americano (Inês Pinto, Ana Domingues) é feita por esta última autora uma outra pequena súmula - A arte de perpetuar - a fotografia e o registo da memória (p.273-75) - que, na parte histórica, remete para o seu trabalho anterior.

 

 

Comentários

Enviar um comentário