As cidades têm cidades dentro...

 FIGUEIRA, FIGUEIRAS 1

Doca da Figueira da Foz 1984 (coleção particular)


As cidades têm cidades dentro... 


    Não é difícil, caro leitor, ao olharmos as cidades, chegar à metáfora que encima este texto. A ela acostaremos se as pensarmos numa perspectiva de tipo sincrónico - as “cidades” que coexistem numa mesma cidade, numa mesma época: os diferentes bairros e zonas de sociabilidade; as diferenças e contrastes centro-periferias; a existência de diferentes realidades sócio-económicas, habitacionais, culturais, civilizacionais, entre outras. Mas também o conseguiremos pensando-as numa perspectiva mais ampla e verticalizada, de tipo diacrónico, isto é, procurando as fases da sua evolução no tempo, no quadro da ocupação e transformação de um dado território, em resultado de processos de maior ou menor evolução, transformação, crescimento ou definhamento… A ela também chegaremos, por fim, se as olharmos numa perspectiva que poderemos apelidar de psico-afectiva (seja para os naturais, que vivem as cidades quotidianamente; seja para os que de fora as procuram em tempos de trabalho; seja para os que as visitam brevemente ou, sobretudo, em períodos de vilegiatura mais prolongados e repetidos, que é a situação a que há muito está habituada a nossa Figueira da Foz), isto é, que remete para a(s) cidade(s) que cada um (re)cria e transporta consigo ao longo da sua existência - a “sua(s) cidade(s)” -, resultantes quer da relação física e vivencial que cada um de nós estabelece directamente com a mesma, quer daquela(s) outra(s) que emerge(m) no plano das representações e das memórias, sejam individuais, sejam colectivas.

    A Figueira, é claro, não foge a esta realidade. Se é verdade que não pode arvorar-se de um passado fenício, romano, visigótico ou árabe - que parece não ter, embora existam no Concelho vestígios importantes de épocas bem mais recuadas que estas no tempo-, como podem fazer algumas outras cidades de maior antiguidade e profundidade, a verdade é que, enquanto aglomerado populacional – que viveu o percurso evolutivo normal do pequeno aglomerado-aldeia que se transforma em Vila e depois em Cidade -, já acumula nas suas divagações passadas a venerável idade de mais de nove séculos de história documentada!

    Tal evolução, é claro, foi produzindo diversos “rostos” - demográficos, urbanísticos, sócio-económicos, culturais, tecnológicos, religiosos... – caracterizadores de sucessivos “presentes”, que foram vividos e transformados pelas gerações, através de um jogo de opacidades e revelações que o correr do tempo entrançou.

  Delas foram ficando testemunhos identitários diversos, sejam de tipo material (arqueológicos, arquitectónicos, tecnológicos, urbanísticos, fotográficos, artísticos…), sejam de tipo imaterial (costumes, formas de sociabilidade, saberes de tipos diversos, formas particulares de sentir, valorizar…) que, porque são patrimónios inestimáveis, é necessário conhecer, compreender, estudar, valorizar e divulgar, num esforço permanente.

    Esse é um trabalho, em primeiro lugar, para os historiadores, mais preparados que estão para garantirem a cientificidade que os últimos dois séculos exigiram e intensificaram, mas também o é, e foi sendo ao longo deste último século e meio, de gente dos jornais e jornalistas, de projectos editoriais, do trabalho das escolas, ou simplesmente de estudiosos que viveram e amaram a relação que estabeleceram com a Vila e com a Cidade, e com os quotidianos das diversas “Figueiras”, no desfilar das suas sucessivas épocas.

    Para alguns destes estudos – sobretudo os que se ligam com o quotidiano e a evolução urbana – as imagens que nos chegaram do passado dão um contributo especial. Desenhos, gravuras, pinturas, plantas topográficas e, desde meados do século XIX, as fotografias, são insubstituíveis quando está em causa uma maior aproximação ao conhecimento de realidades desaparecidas, que só elas souberam reter, ou mesmo documentar cabalmente.

    É com recurso a alguma dessa documentação iconográfica que pretendemos avançar. Através dela procuraremos ligar ao presente alguns aspectos do passado que estão na base de alguma da identidade que a cidade ostenta hoje. No fundo, uma viagem que das “Figueiras” de “ontem” chegue às “Figueiras” de hoje, seguindo opções que também serão devedoras da “Figueira” que transportamos.

    É tempo, pois, caro leitor, de o convidar a olhar para uma primeira fotografia, para uma primeira oportunidade de viajar no tempo. Não para muito longe, como se vê, mas já significativa, até pelo valor simbólico que o fotografado teve para toda uma geração que, como a minha, pôde vivenciar e valorizar o espaço de sociabilidade e trabalho que foi o da antiga Doca, que nela se vê a desaparecer, soterrada, com destaque para o que era a sua rampa de varagem. Estávamos então nos finais do mês de Agosto de 1984, pouco menos de 120 anos depois do arranque da concretização da mesma. Assistiu-se, nessa altura, ao fechar de um ciclo que marcou muito, e durante mais de um século, a vida e a imagem da Vila-Cidade.

    Esta escolha não foi gratuita. Pelo contrário: foi sugerida pelas descobertas recentes surgidas em resultado do programa de obras que tem vindo a ser desenvolvido na zona histórica da cidade, na parte respeitante à Praça Nova e Cais da Alfândega. Aí, nos últimos meses, como é sabido, foram postos a descoberto troços de algumas das antigas couraças que, a partir de 1784, foram sendo erguidas, quer para evitar a penetração das águas do rio, que acontecia através da praia lá existente - a denominada Praia da Reboleira -, quer para alargamento da área utilizada como apoio ao Cais e Alfândega. A couraça principal, mais recente, mas que já não se vê na foto por estar já coberta pelos entulhos, resultou das obras de intervenção amplas e profundas, que na sequência do aterro para a construção do Cais da Vila (1869-1877), permitiram a construção em simultâneo da Doca da Figueira, segundo o plano do Engenheiro Rego, aprovado pelo Governo em 1864, mas só aplicado a partir de 1869, com as modificações introduzidas pelo Engenheiro Adolfo Loureiro(1). A obra haveria de se prolongar no tempo, mais do que era expectável, mas isso será assunto para viagens futuras (2).


FM

Notas:

(1) Adolfo Loureiro, Porto da Figueira da Foz, Lisboa, 1905, p. 65-70.

(2) Mais recentemente, no começo da década de 40 do século XX, parte desta couraça foi por sua vez aterrada por uma outra, construída um pouco mais a sul para permitir a confluência directa da Rua da República no Cais da Alfândega.

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Nota: Este texto foi publicado originalmente, e na íntegra, no jornal "A Voz da Figueira", de 29/5/2019.

Comentários

  1. Parabéns pelo excelente texto. Dá Um contributo importante para a cidade e para os figueirenses. A História com imagens revela-se mais interessante e desafiante.

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    1. Nós é que agradecemos! Vamos contar com a tua companhia!

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  3. Viva, Fernando e Rui.
    1º Quero elogiar o vosso trabalho no seu todo:
    - Organização e estrutura do blog;
    - Textos e imagens fabulosos, com informação a condizer.
    2º Vimos História, dentro da História.
    3º Fiquei a saber o que é CDVs [ (1) Carte de Visite (1854). Cópia (geralmente albumina) retirada de um negativo de colódio. O formato da imagem é 58x94mm e apresenta-se colada sobre um cartão com cerca de 63x102mm.] Na net, não nos dá este significado.
    Ter a possibilidade de ver a imagem do aterro da doca, que sendo em 1984, eu já não me lembrar dele (talvez por gostar dessa zona, que era uma identidade da Figueira).
    É de continuar.
    Abraço

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    1. Obrigado pelo teu entusiasmo, Mário! Deixa-nos contentes. Acompanha-nos!

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  4. Imagens e textos excelentes! Trabalho muito cuidado, numa parceria também excelente. Parabéns ao Rui e ao Fernando !

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